O Sr. Dave e o WhatsApp!

Esta história que aqui partilho convosco é real e aconteceu há 15 dias quando ao lado do aeroporto numa daquelas rampas onde se juntam os “spotters” - anglicismo que entre outras coisas serve para designar os aficionados pela fotografia de aviões - conheci o Sr. Dave, que amavelmente se aproximou de mim a perguntar se podia escutar no meu rádio os aviões que aí vinham.

O Sr. Dave, foi assim que pediu que o tratasse, é um cidadão britânico de 76 anos de idade. Ao reparar no seu entusiamo a filmar cada avião que descolava e outro que aterrava perguntei se era sua primeira vez na Madeira. O Sr. Dave respondeu-me com um sorriso quase irónico de quem parecia estar ofendido com a pergunta. – Primeira vez? Não! Há 15 anos que venho à Madeira! Uma vez por ano.

Admirado com o entusiamo com que filmava os aviões através do seu telemóvel reparei também que fazia-o diretamente do WhatsApp, a tal aplicação que assim como o Messenger permite-nos hoje enviar mensagens de texto, fotos, gravações de voz, vídeos, fazer chamadas de voz e vídeo em direto. O Sr. Dave estava a enviar pequenos vídeos dos aviões para um amigo em Inglaterra. Percebendo a minha curiosidade, Dave antecipou-se e exclamou – Isto é fantástico! Pena não estar vento cruzado porque o meu amigo Louis em Southampton ia adorar. Dave completou a frase com um suspiro tipicamente britânico, se reparem os ingleses têm um suspiro muito diferente do nosso. – Já convenci o meu amigo a vir à Madeira no próximo verão! E depois com um humor também muito inglês olhando para a Ponta de São Lourenço, Dave fez aterrar um desabafo, admitindo que seria bom que apanhasse turbulência à vinda para a Madeira, pois seria um ótimo teste à nova pilha do coração de Louis!

É óbvio que daqui para a frente a nossa conversa girou em torno dos aviões, do velho sonho que nasceu perto de uma fábrica do Spitfire, o mais emblemático avião britânico e desse mesmo desejo que Dave alimentou de um dia ser piloto. Tinha-o conseguido há um ano, quando aprendeu com o seu neto a pilotar no simulador do seu computador, no conforto da sua casa. Dave, mostrou-me orgulhosamente vídeos que tinha no telemóvel de algumas das suas aterragens na Madeira, num airbus 320.

Também óbvio foi a deriva para o assunto Brexit que levou o Sr. Dave a maldizer o trabalhista Corbyn e a confessar-se desiludido por alegadamente não estar o parlamento a representar a vontade do povo. Dave partilhou comigo que este assunto do Brexit só atrapalhava os seus planos mais recentes. Ele e a sua esposa que ficara no hotel, tinham decidido comprar uma pequena casa na Madeira! Tentei dizer-lhe que acontecesse o que acontecesse para não desistir dessa ideia ou não fossemos nós os mais velhos aliados da Inglaterra.

Esta história real mostra-nos várias coisas, uma delas é aquela que se preocupa demasiado com a distorção da imagem da Madeira devido à fama do nosso aeroporto. Desde já faço uma ressalva que tranquilizará os críticos que realmente percebem de turismo. Tudo o que daqui em diante eu escrever será como nos curriculum vitae, é tudo na “ótica do utilizador”. Vejo, observo, ouço e decido que posso ter uma opinião por mais insignificante que seja. Quem realmente percebe disto e já tive o prazer de os ouvir são pessoas como o André Barreto e Bruno Freitas que poucos dias depois da história do Sr. Dave ouvi-os falarem de turismo numa conferência, ou o Sr. João Welsh que também admiro pela sua assertividade não esquecendo Pedro Costa do Hotel Quinta do Furão que não tem medo de falar do que percebe.

Há no entanto três conclusões que arrisco retirar desta história: 1.º - O nosso aeroporto é conhecido, presença assídua nos rankings, não pelo Cristiano Ronaldo mas pelo vento. Há uma fama que não tem de ser propriamente má e pode ser aproveitada. 2.º - É preciso ter cuidado com os rios de dinheiro que se gasta na promoção do destino Madeira. Redes sociais ou aplicações como o WhatsApp são hoje os veículos mais eficazes e baratos de promoção, só este por exemplo congrega 1,5 bilhões de utilizadores. Cada vez mais estas plataformas digitais são terreno fértil para o marketing e a região pode e deve saber tirar proveito disso. 3.º - A melhor e mais barata promoção é feita por quem cá vem. Assim como o Sr. Dave que já trouxe cá a família, trará também o amigo e provavelmente culminará com a compra de casa na Madeira. Se tratarmos com cuidado o que de melhor temos não faltará quem nos promova na primeira pessoa.