Com receita ou sem prescrição?

Este ano, para mal dos nossos pecados, os madeirenses e porto-santenses estão a sentir dificuldade em aplicar a máxima “Ano novo, vida nova”.

Politicamente, pelas mãos do PSD-Madeira, 2019 iniciou com uma lufada de ar impregnado de mofo, carregado de demagogia, com tanto de barata como de cansativa e pouco convincente.

A renovação recuou, engrenou a marcha-atrás e a fotografia do abraço entre o Antigo e o Novo Regime tem tanto de deprimente como de intrigante. Os “belos companheiros” riem. Deles próprios? Dos madeirenses e porto-santenses, por julgarem que estes irão numa cantiga que se solta de um disco riscado?

Nota-se uma clara tentativa de investir em cuidados paliativos, remediar o mal feito, uma verdadeira “política do penso-rápido”. E os “belos companheiros” riem. Deles próprios? Dos que tiveram que dar o braço a torcer ao perceberem que outro remédio não havia se não reabrir a Caixa de Pandora?

Os madeirenses e porto-santenses não têm um Serviço de Saúde à altura, mas agora são confrontados com uma chuva de receitas, receitas essas que não convencem ninguém por virem de uma renovação que tem governado sem prescrição, com recurso desmazelado ao improviso e à corrida atrás do prejuízo.

Na política não pode nem deve valer tudo. Onde ficam os princípios? Aonde moram as convicções de cada um? Com tanto telhado de vidro ainda há quem ouse atirar pedregulhos ao vizinho?

Na Madeira e no Porto Santo ninguém sofre de amnésia ao ponto de esquecer que quem até “ontem” era condenado em praça pública ressurge, qual fénix, ainda que de asas chamuscadas, numa manobra de diversão que deixa em aparente êxtase os arautos da renovação. Sim, acredito mesmo que seja aparente, porque, caso contrário, não há remédio para curar tanta falta de coerência.

Nem os mais céticos pensaram que a Renovação fosse sol de tão pouca dura. Nem os mais crentes acreditavam que se reviveria com tal euforia o regresso de um D. Sebastião. Os mais velhos, do alto da sua incontestável sabedoria, dizem e com razão “Ninguém sabe ao que chega se não depois de ter chegado!”

Os madeirenses e porto-santenses não querem ser bombardeados com receitas, muito menos querem que lhes passem atestados de burrice. Pelo contrário, felizmente, mostram-se cada vez mais participativos. Anseiam por soluções e, mais do que nunca, estão prontos para darem o seu voto de confiança a um projeto assente em medidas estruturantes.

São cada vez mais os que olham para a atualidade política com espírito crítico, opinando sem receio de represálias, dando os seus contributos valiosos para a construção de um projeto aglutinador, com o qual se identifiquem.

É óbvio que este trabalho sério, que confere cada vez mais solidez a um projeto ambicioso, amedronta, enerva, causa ansiedade. Perante este cenário, ainda que sem perder o foco nas pessoas e nas suas preocupações, sinto-me até na obrigação de aconselhar os visados a não consumirem medicamentos sem a devida prescrição. Pela vossa saúde!