Comemorar dez anos com os olhos bem abertos

Há uma década estávamos a inaugurar a Residência Universitária Nossa Senhora das Vitórias — uma designação curiosa para os fervorosos partidários do laicismo — com um total de 209 camas, sendo actualmente a única residência da Universidade da Madeira (UMa). Se na época o alojamento estudantil não se evidenciava como um problema, actualmente representa uma das despesas mais significativas para os estudantes, sendo, também, uma das principais preocupações no Ensino Superior. Nos últimos anos, o número de camas disponíveis não evoluiu de acordo com a necessidade e a procura, uma consequência directa do desinvestimento sentido na acção social. O aumento do número de estudantes a ingressar no ensino superior impunha, a quem de direito, a criação de condições para que estes pudessem obter os seus diplomas com sucesso. Foram, contudo, poucas as residências construídas, sendo a nossa residência universitária, já com 10 anos de existência, um dos últimos exemplos em Portugal.

Os dados de um levantamento efectuado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em Maio de 2018, deixavam a nu uma dramática realidade mais do que previsível: a falta de camas para os estudantes universitários deslocados das suas áreas de residência, dado que a oferta garantia alojamento para apenas 12,3% dos estudantes do ensino superior público português. Algumas medidas foram anunciadas e outras já concretizadas no sentido de acelerar o processo de construção e de requalificação de residências, prevendo, num primeiro momento, disponibilizar 12 mil novas camas.

​E quando falamos do problema das residências, não se trata apenas das camas. Faltam condições na grande maioria delas, inclusive no Funchal. Equipamentos avariados, cozinhas claramente insuficientes e subdimensionadas, manutenção deficiente por falta de recursos humanos e o não cumprimento inconsequente dos regulamentos de residentes são apenas alguns dos problemas que ensombram a comemoração de mais um aniversário desta infaestrutura que é fundamental para a UMa e seus estudantes. Fica-nos, contudo, a esperança da resolução de alguns destes desafios com a promessa de ajuda governamental assumida entre os festejos e as fotografias da praxe.

O problema com a falta de espaço e de condições das residências universitárias portuguesas não resolve, para já, o problema do José estudante deslocado que, alojado num hostel em Lisboa é obrigado a pagar a taxa turística diária, ou as dificuldades do Mário que é obrigado a pagar cerca de 600 euros mensais, para ter direito a uma cama num apartamento que divide com outros estudantes.

Na Madeira, esta situação toma outras proporções dado que não existem alternativas à residência situada na zona histórica da cidade. Desejando e almejando uma universidade cada vez mais internacional, numa plataforma de trocas de saber com todo o mundo, a existência de residências adequadas é uma premissa para a fixação, mesmo que temporária, de um corpo de investigadores e estudantes cada vez maior. A insularidade imprime dificuldades acrescidas na captação de pessoas que residem fora da Madeira, considerando que é fundamental um forte e urgente investimento na resolução do problema do alojamento para toda a comunidade.

Se tivermos em consideração que, e de acordo com os resultados do Inquérito às Dificuldades Económicas dos Estudantes da UMa em 2018, 20% dos estudantes que são deslocados da sua área de residência habitam na residência universitária, 32% alugaram um quarto, casa ou apartamento e 48% residem em casa de familiares/amigos, urge a construção de novas residências e a requalificação de edifícios devolutos para benefício dos estudantes que escolhem a UMa para a obtenção de diplomas de nível superior.

As comemorações também devem ser momentos de reflexão e de planeamento para os desafios, não apenas a organização de uma celebração com pouco ou nenhum conteúdo. O números de estudantes a frequentar a UMa, vindos de fora do Funchal e da Madeira, tenderá a aumentar — não apenas, mas também — devido ao prolongamento, para três anos, do Ciclo Básico de Medicina na UMa, curso que tem na sua maioria estudantes oriundos do continente português. É preciso intervir de imediato. E as vantagens são inúmeras: incremento da internacionalização, satisfação da procura existente e redução de um problema, em proporções descontroladas, que actualmente assola as grandes cidades portuguesas. Em Abril, daremos continuidade à reflexão que exigimos sobre o Ensino Superior, lançando vários ensaios sobre este e outros temas.