Uma questão de moda…

“A Organização das Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde definem a Saúde como o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de problemas de saúde físicos.”

“O ambiente urbano, caraterizado por uma forte pressão antropogénica, compromete a qualidade de vida dos habitantes das cidades.”

“As árvores e as zonas arborizadas contribuem positivamente para o aumento da qualidade de vida, especialmente nas zonas urbanas.”

São várias as publicações científicas e os especialistas que advogam o verde nas cidades, com benefícios claros a nível da saúde humana e bem-estar, coesão social e identidade, biodiversidade, regulação da temperatura, qualidade do ar, drenagem e proteção dos solos, aproveitamento da biomassa, aumento dos valores das propriedades e da atratividade da área.

Tudo isto parece mais ou menos óbvio, mais ou menos intuitivo.

As áreas urbanas são caraterizadas por uma proliferação de superfícies duras, despidas, áridas.

São alguns, espero que não muitos, os que poderiam argumentar que há um certo charme no minimalismo urbano, que, na elegância, o menos é mais, que as carecas até estão na moda…

Mas numa altura em que se assiste a uma proliferação das doenças respiratórias, em que se prevê que as enfermidades mentais venham a corresponder a 15% de todas as doenças a nível mundial, e quando se sabe que a vegetação urbana pode contribuir para uma atenuação destes males, qual é a dúvida?

Estaremos todos dispostos a ficar reféns de modas, de caprichos? Não temos o direito de não deixar que nos impinjam uma cidade desvirtuada, despida, salpicada aqui e acolá por alguns gravetos onde antes existiam árvores frondosas?

Atenção que a calvície, embora possa ser moda, em termos fisiológicos é um assunto por demais delicado. Sabe-se que é pela cabeça que se perde a maior parte do calor corporal. Pode-se, é claro, argumentar que as ideias assim estão sempre arejadas, mas, por outro lado, pode-se contrapor que andam constantemente arrepiadas, ou são facilmente levadas pelo vento… Se formos olhar a questão de uma perspetiva dermatológica, verificamos que não é nada fácil, ou barata, a manutenção da superfície luzidia – são precisos tónicos, loções hidratantes, e cremes com fator de proteção solar elevado, que o buraco na camada de ozono e os raios ultravioletas não são para brincadeiras…

Uma cidade árida, como a que se está, aos poucos, a criar aqui no Funchal há de padecer exatamente dos mesmos problemas: maior exposição aos extremos climáticos, aumento da temperatura localizado, criando o chamado efeito de ilha, extremamente prejudicial à saúde, impermeabilização dos solos potenciando os efeitos de escorrência, enfim…

E mesmo que agora se iniciasse uma plantação desenfreada dos tais pauzinhos de espetada, as plantas, como os cabelos, demoram a crescer e precisam de cuidados, ou não vão surgir caspa e piolhos a comprometer a saúde capilar.

A manutenção e o cuidado de uma cidade, a salubridade da urbe, são fundamentais para que não surjam as nossas tão bem conhecidas pragas urbanas que deram agora para proliferar descaradamente nas nossas ruas, sabe-se lá porquê… Ratos, baratas, pombos e afins, para além do valente incómodo e da degradação do património, põem em risco a saúde pública – a mental, pelos sustos que provocam, e a física, por todas as doenças associadas…

Desculpem lá qualquer coisinha, e atenção que qualquer semelhança é mera coincidência…

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*Coordenadora dos Trabalhadores Social Democratas, secção dos Biólogos