O seu olhar era igual ao meu

Nasci numa noite de inverno fria onde a minha mãe me teve debaixo de um alpendre de uma casa desabitada já praticamente desfeita pela erosão do tempo e há muito esquecida pelos seus donos. 

Nunca conheci o meu pai. Somos miseravelmente pobres e sem-abrigo. Vasculhamos quase tudo à procura de comida ou abordamos as pessoas nas esplanadas ou à porta dos restaurantes na esperança de que alguém se compadeça e nos dê alguma comida que disfarce momentaneamente a fome que sentimos quase de forma permanente. Pouco tempo depois de ter nascido a minha mãe engravidou novamente de um companheiro ocasional. Porque não tinha meios para sustentar os dois filhos deixou-me à minha sorte. Continuei a luta pela vida tal como ela me ensinou. Nunca invejei ninguém mas quando passava pelos edifícios das zonas mais chiques da cidade não podia deixar de reparar naqueles afortunados deitados nas varandas protegidas do vento, felizes, bem alimentados, e com o amor incondicional de uma família. Nesses momentos sentia uma enorme tristeza, mas na verdade as coisas que mais me incomodavam era a chuva e o frio dos dias de inverno e a solidão permanente para onde, sem querer, fui empurrado. Restava-me a memória das carícias maternas quando criança e dos mimos com que até à altura da despedida fui abençoado. Sem fé no futuro e abandonado por tudo o que me rodeava, resolvi tentar a minha sorte na cidade, para depressa perceber que ela era demasiadamente perigosa de percorrer durante o dia. Então, à noite, sob o frio, e à luz artificial e ténue que iluminava as ruas saía à procura de comida sentindo permanentemente a solidão até à parte mais íntima de mim. Com o tempo, sujeito a todas estas vicissitudes perdi a fé, desconfiando de tudo e de todos, e embora novo, fiquei cansado da vida.

Um dia, durante a noite, como era meu hábito, ao percorrer as costumeiras ruas da cidade, encontrei-o debaixo das arcadas do bazar deitado em cima de um cartão pardo, coberto por um cobertor que mostrava sinais óbvios de velhice. Parecia dormir. Olhos fechados. Traços rudes marcados pela vida. Curioso, parei silencioso a uma distância cautelosa, perguntando a mim próprio se a vida teria tido com ele as mesmas desavenças que teve comigo.

Sem se mexer abriu os seus olhos e olhou nos meus - o seu olhar era igual ao meu! O olhar triste de quem passou privações semelhantes... Vagarosamente ele levantou o cobertor num convite a que me deitasse ao seu pé, no calor daquele aconchego. Já sem nada a perder, deixei o receio de parte e aninhei-me com aquele ser que não era da minha espécie, sentindo o seu afago, com as suas mãos deslizando pelo pêlo da minha cabeça, do meu corpo, da minha cauda. Ronronei. Senti-me grato. Não me sentia assim tão feliz desde as últimas carícias da minha mãe, e adormeci sereno, agradecendo-lhe a caridade de me ter restituído à vida.

Não maltrate. Não abandone. Os animais não humanos são seres sencientes tal como nós, capazes de sentir solidão, dor, fome e frio, tal como prazer e felicidade.