As dificuldades acrescidas destas eleições europeias

Com o Brexit, os ataques terroristas, a crise migratória, o Estado de Direito em risco em diversos países europeus e com o desencantamento dos cidadãos pela política, advinham-se dificuldades acrescidas para as próximas eleições europeias.

Os egoísmos nacionais, nacionalismos e neo-fascismos, de uma extrema-direita que avançou sem pedir licença pelas nossas portas, não são de hoje, mas nunca foram tão temidos como agora (exceptuando nos anos 30 e durante o período da segunda grande guerra). A questão é saber como é que não reparámos na sua entrada. O rosto da Europa envergonha-se.

Neste momento, o desafio que nos é colocado é saber como combater, trazendo as pessoas para o terreno da moderação, aquilo que já se prevê acontecer: a instalação do fascismo no Parlamento Europeu. Suécia, Itália, Hungria, Polónia, resquícios na Alemanha, Espanha e países de leste mostram que a União está em risco por conta da sombra do fascismo.

Assistimos hoje àquilo que T.S. Eliot descrevia como “provincianismo temporal”, referindo-se àqueles que ignoravam as lições, e a sabedoria, da história. Sem olhar para o passado, corremos riscos maiores de cometer os mesmos erros no futuro. Na União, preocupam-me as alianças que estão a ser feitas e que a queda seja bem maior do que aquilo que se espera. Sinal disso, foi o apoio de parte da direita moderada a um sistema político húngaro que expulsa, mata e discrimina quem não seja puro, isto é, “os de fora”. Por outro lado, também temos governos da esquerda europeia que não honram os valores a que se propuseram. Malta e Roménia são exemplos disso, numa outra dimensão que não se confunde com o caso húngaro ou polaco.

Na verdade, a União, esta mesma que nos fez crescer como país e como cidadãos, está em risco porque temos maus governos na Europa. Porque alguns dos países têm gente rasa e sem sentido de Estado no poder. Portugal continua a ser uma excepção no cenário europeu. Esperemos que toda a Ibéria seja essa força de combate e de resistência aos que têm falta de memória. É que por conta do fascismo e das ditaduras morreram milhões de inocentes em toda a Europa.

No Século XX, os mortos das ditaduras tiveram rostos, quase sempre presos ao anonimato. Adolf Hitler (40 milhões de mortes), Benito Mussolini (440 mil), Slobodan Milosevic (Sérvia - 230 mil), Francisco Franco (200 mil) e Nicolae Ceausescu (65 mil) foram as caras do mal na Europa. Se olharmos para o resto do mundo, Josef Stalin (mais de 20 milhões de mortes), Saddam Hussein (2 milhões), Pol Pot (Camboja - 2 milhões), Theoneste Bagosora (Ruanda - 800 mil), Hadjo Mohamed Suharto (Indonésia - 750 mil), Idi Amin Dada (Uganda - 500 mil), Charles Taylor (Libéria - 75 mil) e Pinochet (Chile - 3 mil) espelham um retrato incompleto do panorama global.

Hoje temos o dever de honrar quem perdeu a vida a defender a liberdade. Devemos, pelo menos, evitar a tentação do “provincianismo temporal” do século XXI, escravos das notificações, dos likes e dislikes e do próprio mundo digital. Escravos dos temas semanais, como foi o caso recente de um programa televisivo do qual me recuso a comentar. Não há nada a dizer. Salazar custou a Portugal cerca de 100 mil mortos, contabilizando com os que morreram durante a guerra colonial. Há quem tenha memória e saiba que o futuro se faz com as lições do passado.