Que país é este?

Que raio de país é este, em que passados 40 anos sobre a criação de um serviço de saúde, geral e universal, continua a não garantir um acesso pleno aos cuidados de saúde e a não ultimar uma reforma dos cuidados de saúde primários que os recentre verdadeiramente como a base do sistema de saúde e o impeça de claudicar ao primeiro surto de gripe, entupindo vergonhosamente as urgências hospitalares?

As pessoas não são doidas para entulhar serviços, pacientemente horas a fio, com minudências que poderiam ser debeladas alhures. Qualquer dor ou alteração no corpo é para as pessoas, individualmente, uma urgência, ainda que tecnicamente não o seja e a decisão do limite de tolerância que justifica ir é do próprio doente. Tudo está em saber se alguém lhe ensinou porquê e onde se deve dirigir correctamente e se havia alternativa à hora em que decidiu ir. Por mais que se queira sofismar, a culpa nunca é do cidadão atormentado pela lesão da incolumidade do seu bem-estar, mas do sistema que tem a obrigação de o letrar, de o informar, de o encaminhar, de lhe criar as soluções e alternativas que o seu estado de saúde exige. Isto se o Estado quer ser credível, não obstante os lirismos das suas teorizações de princípio.

Que raio de país é este, em que passados tantos anos sobre a recuperação do jogo democrático, exige ao mais alto magistrado da Nação relembrar que os políticos devem ser confiáveis e pautar-se pela ética e pelos princípios? E que raio de país estamos a construir para legar às gerações futuras, pródigo em escândalos de vigarice e corrupção, que atingem duramente os mais altos patamares, na banca, no futebol, na política e, que diabo, até na justiça que deveria ser o último reduto da probidade?

Apesar da podridão de altas figuras estar mais exposta socialmente e perseguida pela justiça, parece manter-se uma cifra negra da criminalidade, não detectada, que alastra a outros planos de menor importância, onde toda a tramóia vai passando por entre os pingos da chuva, exibindo sinais exteriores de riqueza cuja origem o cidadão comum questiona. E dá a ideia de que o crime compensa porque, ou levar-se-á anos em julgamento, ou julgado tarda o cumprimento da condenação em imbróglios jurídicos de formalidades e recursos, indigeríveis para a maioria das pessoas.

Preocupante é tudo isto estar a enraizar-se como uma forma natural de agir social, sinónimo de orgulhosa esperteza que se tolera e até admira. Ninguém quer privar com um pilha-galinhas cadastrado, mas um embusteiro enriquecido nos malabarismos da política e da corrupção, é acolhido nalguns salões de canasta como um exemplo virtuoso de sucesso, um tipo dinâmico que fez pela vida.

Quem tomou o chá da lisura em pequeno, procura educar os filhos para os valores da honestidade, para o esforço na competência que premeia. Mas que dizer-lhes neste quadro tenebroso de trapaça e promiscuidade? Que afinal a aldrabice do vizinho é que está certa? É ela que compensa? Que se forem rectos e cumpridores e procurarem subir na vida à conta do trabalho, do empreendimento, do mérito, são os tontos que têm de emigrar para prosperar ou que têm de se contentar com as sobras que a mediocridade vigarista não quer? Ou que têm de chafurdar no lamaçal da prevaricação?

E o que preocupa certa gente não é o flagelo da situação em si, mas ela poder servir de arma de arremesso, num jogo político insolente em que alguns dos trambiqueiros se atiram mutuamente à cara, quais meretrizes sem água para se lavar.

Nervosos devem estar os que em silêncio se questionam se deixaram rasto que os possa delatar. É que os prazos de prescrição são longos e não vá o Diabo tecê-las. O outro também era um animal feroz…

Torga dizia que nós somos uma comunidade pacífica de revoltados. Os Portugueses parecem não saber canalizar a indignação para a acção, para a afirmação e imposição da cidadania, bastando-se a zurzir pela calada os seus representantes nos poderes do Estado, o tal ente abstracto personificado por gente nem sempre confiável ou ciente do seu papel instrumental de serviço ao bem comum. Já se imaginou se a malta usasse todo o empenho e a irracionalidade violenta que dedica às tricas do futebol, para arremessar a sua verve justiceira contra a corrupção e a ineficiência do Estado e se ornasse de colete amarelo? Seria um indesejável retorno à selvajaria, mas ninguém ousaria sonhar com o requinte da cela do preso 44.