A nossa música

É sempre difícil falar dos amigos. Não porque sejam muitos ou complicados de entender ou de escrever. A dificuldade talvez decorra de nos serem muito próximos, feitos da mesma matéria, da mesma alegria, da mesma fragilidade e da ténue tristeza que acompanha todos os estados que são a nossa mais verdadeira essência.

Os amigos conhecem-nos a fundo. Sabem de nós, antes de nós. Conhecem a forma como o sangue nos corre e o coração pára. Conhecem-nos pelo ritmo de uma música que é bem capaz de nos definir.

Andamos ao mesmo compasso, temos o mesmo som ao cair e ao levantar voo. Somos afinados por dentro e por fora. E, por isso, partilhamos a pauta. Essa mesma onde ensaiamos memórias, filmes, livros, momentos, a vida e a dor de a sabermos frágil e surpreendente.

Não sabemos muita coisa, a não ser acertar o erro, o exato momento da falha na música. Essa capacidade inata de mergulhar sem sabermos o que está por baixo e o que resta por cima.

Podem passar anos, a vida, mas somos ainda esses adolescentes dos primeiros planos e da vida primeira.

Assustados e confiantes a um só movimento. Cheios de ideias do mundo na cabeça e nesse lugar indefinido onde nos pulsa um coração. Às vezes no centro do corpo, mas também na cabeça, no peito e nos pulsos. Prova de vida ou nem tanto. Talvez apenas essa pulsão de seguir em frente, mesmo quando nos parece falhar o chão e o ar.

Somos chegados à idade em que a vida atingiu aquela velocidade de cruzeiro em que quase já não se sente a forma como avança e se detém, mas que sabemos que inevitavelmente não vai parar até atingir o fim. Chegados aqui, parece que fomos muitos, mas também um só que se multiplicou para ser inteiro. Ou pelo menos tão inteiro quanto possível.

Parece que tudo foi há muito tempo, mas também parece que foi agora.

Voltamos, sem querer, ao jardim do liceu, ou ainda antes disso. Mas estamos lá juntos, a tentar acertar o som à música, a aprender a recordar a letra ou a aprender pela primeira vez as palavras.

Somos essencialmente esse som, uma banda sonora imperfeita, mas certa nos dias que nos trouxeram até aqui. A música e o som que somos ainda falha algumas notas, mas, ainda assim, seguimos em frente. Não há outro caminho, nem outra pauta.

Os nossos pés continuam ágeis por dentro de uma alma que nos anima e nela ainda somos o que fomos. Cambaleamos como se ainda não soubéssemos ser, como no início, como na primeira insegurança. Desafinados até ao fim, mas temos esse som que nos define. Pode muito bem ser uma daquelas músicas fundadoras, ou os livros que nos mudaram, ou apenas aquela vez em que fomos riso e choro, alegria e a profunda tristeza por dentro dela.

Um dia seremos também silêncio. Mas não ainda. Até lá vamos construindo o silêncio possível dentro do som que somos.