Depois do derradeiro venha Janeiro verdadeiro

Graças a Deus é Janeiro. Não que não goste do Natal. Antes pelo contrário. Depois do Bazar do Povo (que no fim do verão já tem pinheiros à venda), a minha casa deve ser das primeiras a ser enfeitada. Finais de outubro e já está decorada. Começo é a abominar o espírito que domina esta quadra.

 

Juro que já não podia mesmo era com o “desejo-te tudo de bom” quando “a minha vontade era te esfolar vivo”. Gosto muito mais de ações do que de (segundas) intenções.

E esta é a altura das intenções das ações. Tudo faz planos. Poucos vão pôr em prática. Mas pelo menos acabaram as palmadinhas nas costas e as refeições com quem só estamos de ano a ano!

Foi-se a época em que empregados que já não podem ver os patrões, vão ao jantar de natal da empresa.

São filhos que depositaram os pais no hospital e lembraram-se, depois de meia dúzia de ponchas na placa central, que não seria má ideia visitá-los e oferecer, sei lá, um pijama!

São prendas suplentes que compramos para que não fiquemos mal à frente daqueles que nos presentearem e nós não contávamos. Em último caso, aproveitamos oferendas que nos endereçaram, mas nada nos dizem. Lembranças para outros que, durante quase um ano, mudam de passeio quando nos vêem ao longe.

São solidários que captam o momento e publicam nas redes sociais.

São católicos (im)praticantes que se transformam em fieis devotos. Não vão à missa das 18:30 durante 11 meses! Vão às do parto dias a fio. Recusam-se a ir fazer um trabalhinho 3 cruzamentos à frente, mas correm a ilha de lés a lés para ouvir a palavra do senhor. Não levantam o rabo da cama sem silenciar o despertador umas 8 vezes, chegam tarde ao emprego, mas se for preciso fazem directa para ir guardar lugar na fila da frente da homilia. Valente sacrifício esse de ir para a igreja à espera dos comes e bebes.

Depois são os obcecados com a linha que nesta época comem broas, bolos de mel, torresmos e sandes de carne de vinho e alhos como se não houvesse amanhã.

No fim do ano devoram-se as passas ao ritmo dos pedidos. Tudo procura o mesmo. Saúde, sucesso, paz, amor e dinheiro. Não estou certo que vá chegar para as encomendas! Mas não custa pedir.

Em Janeiro volta tudo ao normal. Dieta louca, mesquinhez, avareza, inveja e todo o sentimento que, mesmo não fazendo o bem ao próprio, faz mal ao próximo. Tudo isto acompanhado por um sem número de “novas” resoluções empoeiradas, que estão há anos por realizar. E assim vão continuar... Tal como o “bom ano” que vai aí até meados de fevereiro!

Aproveito para vos desejar do fundo do coração um bom ano com tudo de bom... Não façam por isso não!