Mediações e Imediatismo

Já aqui falei sobre o trabalho do projeto ‘Memórias SRF’ dedicado às “memórias transfronteiriças num mundo digital”.

As novas tecnologias da comunicação têm permitido dar voz a exemplos concretos de quem viveu na pele as várias etapas do “itinerário migratório”, narrando as contingências que os levaram a deixar a ilha no século XX.

Ao longo de dois anos, o projeto tem vindo a trabalhar em prol da preservação da cultura local e principalmente na recuperação e preservação da memória histórica do fenómeno da emigração na freguesia de São Roque do Faial, através de processos de investigação de documentação e de entrevistas para a elaboração de histórias de vida, ligando todos os que têm raízes nesta terra, com a ajuda das plataformas digitais. Na nossa página no Facebook, recebemos pedidos por parte de lusodescendentes que procuram informação sobre os seus antepassados.

Esta experiência surge como contraponto, positivo, a uma preocupação que me tem acompanhado: perante uma sociedade cada vez mais descrente, cética em relação às formas de mediação tradicionais, às instituições, a credulidade com que as pessoas validam informações de origem (no mínimo) duvidosa deixa-me espantado.

Curiosamente, há já quem diga que o homem da era digital é aquele que “acredita em tudo”. Não em profundidade, claro está, mas sem filtro, sem necessidade de mediação e inclusive acolhendo a informação que chega como um ato de insubordinação e libertação do que eram as mediações mais tradicionais.

Julgo que esta avalanche de dados, sem qualquer tratamento, muitas vezes carecida de qualquer veracidade, vai sublinhar, a médio prazo, a necessidade de um mediador, de alguém que valide e transforme esses dados em verdadeira informação.

A verdade é que, com um passo, pode manter-se viva uma longa caminhada, mas é fundamental que haja rumo, destino, para que a mesma não redunde apenas num passeio estéril, em círculos, vagueando pelos tormentos que exigem determinação e esperança para poderem ser superados.

Desistir do futuro é anular o presente e apagar a memória. Ninguém consegue avançar no vazio travestido de fantasma, fingindo não ter existência ou permanecendo à espera de um milagre qualquer que, por iniciativa alheia, venha resolver os dilemas quotidianos e quase permanentes com que a vida nos presenteia.