“Desiquilébrios” de poder

Há cerca de 2600 anos, num tratado sobre “A Arte da Guerra”, o general e estratega Sun Tzu dizia que a melhor guerra é aquela que não tem de ser travada e que o maior triunfo consiste em vencer o inimigo sem combate.

Um especialista do século XIX, Von Clausewitz, dizia que “a guerra não tem em si os elementos para uma decisão completa e uma solução final”, pelo que recomendava contenção no seu uso e, mesmo assim só depois de cuidadosa análise da estimativa de custos/benefícios, já que qualquer erro é desastroso, ou mesmo fatal.

Se estas frases (entre várias outras) servem como uma luva para justificar a necessidade do uso da diplomacia como meio de resolução de conflitos sem recurso à violência, também se podem aplicar-se em situações mais musculadas.

Já depois da II Guerra Mundial, o estratega nuclear Bernard Brodie defendia que “até agora [1946] os exércitos têm sido necessários para ganhar guerras, mas tornam-se cada vez mais necessários para as evitar”. Com dois blocos militares, com a grande maioria dos países alinhados atrás de duas superpotências, entrava-se na época da “Deterrence” (no sentido de dissuasão). Outro estratega militar, Albert Wohlstetter, apelidou de “equilíbrio de terror”. A capacidade de uma guerra total, com a destruição mútua assegurada, tornava impossível uma vitória nuclear.

Se for bem aplicada, esta política pode ser bem-sucedida através de dois efeitos. Um país de grande poder pode convencer outro de que o desequilíbrio no cálculo dos custos/benefícios é de tal modo, que a expetativa de vitória é nula (efeito negação). Também pode convencer o adversário que mesmo que até possa ser derrotado, os custos serão de tal modo elevados para os vencedores que seria apenas uma vitória nominal, insuportável (efeito castigo).

Através da ameaça de negação da vitória ou de castigo, a política militar dos EUA tem-se baseado neste pressuposto até hoje mas segundo especialista americano Andrew Krerpinevich é cada vez menos eficaz e pode aproximar-se perigosamente do seu fim.

Se durante alguns anos os EUA foram a única superpotência mundial, continuaram o seu desarmamento nuclear, a par da ex-URSS. De cerca de 20 000 ogivas nucleares que cada um dos blocos possuía há cerca de 30 anos, estima-se que EUA e Rússia possuam hoje na ordem das 1 500 cada um. Com os restantes países nucleares a possuir poucas centenas de ogivas, a diferença de poderio atenuou-se consideravelmente. Por outro lado, o mundo é cada vez mais multipolar e, a par de um ressurgimento da Rússia, a China tem já algo a dizer, especialmente se, a par das mais de 300 armas nucleares que se estima possuir, incluirmos os recursos em termos de matéria físsil que permitem produzir rapidamente muito mais a capacidade militar convencional. Num cenário tripolar, nenhum dos países terá hoje capacidade de enfrentar os outros dois rivais em simultâneo, o que torna o equilíbrio consideravelmente mais instável.

Mas o cenário piora.

Além de mais atores com grande capacidade destrutiva há armas mais inteligentes que podem impedir a capacidade de resposta em tempo útil por parte dos atacados. Junte-se a dependência dos sistemas eletrónicos em rede e as armas nucleares de baixo efeito (que por serem tão parecidas com as armas convencionais parecem mais suscetíveis de poder mesmo ser utilizadas), e temos a primeira parte da receita para o desastre.

Mas a segunda parte, aquela que me preocupa mais, prende-se com a perceção do risco no cálculo dos custos/benefícios. Sabemos que é muito difícil calcular a racionalidade de outra pessoa e perceber como avalia os riscos que está disposta a correr. Sabemos também que a maior parte das pessoas corre mais riscos quando acha que está a defender algo que pode perder do que algo que deseja conquistar. Os estudos mais recentes sobre psicologia da tomada de decisão mostram que a este fator devemos juntar o otimismo audaz, característica que normalmente contribui para a eleição dos políticos, principalmente os mais populistas.

Como estes políticos mais populistas (mas não só) tendem a rodear-se de sicofantas e bajuladores que lhes inflacionam o ego, o poder que conquistam inebria e desequilibra.

A avaliar pelo finca-pé nos EUA por parte desta administração republicana, em que se põe um muro inútil à frente do seu povo, o futuro não só não augura nada de bom, como parece estar mais próximo do que desejávamos.