Antes das letras e dos números

Os primeiros passos na educação surgem antes das letras e dos números.

O primeiro momento educativo acontece quando olhamos nos olhos dos outros, do pai, da mãe, do irmão ou do vizinho, quando ao olhar o outro percebemos que somos todos iguais, que somos todos pessoas. Assim, logo no princípio da educação, antes das letras e dos números, devemos ensinar as crianças a desconfiar de preconceitos e estigmas e a não viverem com ódios, quase sempre induzidos por propagandas que aparecem de forma directa ou subtil e que nos transformam em vítimas de quem lucra com o ódio.

Se não for assim, construiremos uma sociedade intolerante que tenderá a eliminar quem é ou pensa de forma diferente de nós. A história já mostrou muitos casos desses e parece que esses casos se podem voltar a repetir, mesmo que de forma menos radical.

Os preconceitos e ódios que infelizmente cada vez mais se vão observando são resultado de um enorme fracasso da educação, antes das letras e dos números e até durante a aprendizagem dos mesmos.

Com as letras e números temos de ensinar a Paz, a Convivência, o Humanismo e estes valores devem começar na Família, continuando na Escola, sendo extensivos aos Média.

Esta falência pode levar a um declínio da Democracia e até da Civilização.

Se um país tornar facultativo o ensino do Humanismo e do Iluminismo nas escolas é porque não está interessado que as pessoas aprendam e tenham gosto na Razão, na Arte, no Pensamento, na Liberdade. Hoje há alguns progressos de massificação, mas há retrocesso nos níveis de ensino básico e superior, debitam-se muitas técnicas e os seus pormenores, aprendendo-se pouquíssimo do que importa para contribuir à necessária formação de um nível intelectual que seja capaz de governar bem, de forma esclarecida, com sentimento pelo pensamento social e humanístico.

Como disse no meu último artigo, desafiando o Senhor Vice-Presidente do Governo Regional, é necessário um grande encontro e debate sobre o ensino que temos e o ensino que queremos, envolvendo toda a comunidade escolar, professores, encarregados de educação e alunos para em conjunto encontrarmos e construirmos códigos educativos amplos, capazes de alicerçarem solidamente um bom sistema educativo.

É necessário definir e tornar prática corrente acções de formação e actualização dos professores.

É necessário e urgente que 2019 nos faça renascer e nos lembre que, antes das letras e dos números, temos de aprender nos olhos dos outros que somos todos pessoas.