Bastardo: O Legítimo e o Ilegítimo (parte 1) Pelo Enólogo…

Se consultarmos o dicionário verificamos que Bastardo significa ‘que não é de casta pura’, ou ‘aquele que era fruto de uma relação extraconjugal’, ou ‘filho ilegítimo’. Ora, porque será que os antigos deram o nome de Bastardo a tão nobre casta? Esta, na verdade, é uma casta muito difícil de trabalhar, tanto na vinha como na adega, que a torna, aparentemente um filho ilegítimo.

Devastada da Madeira no Séc. XIX, primeiro pelo Oídio e depois pela Filoxera, foi levada quase à extinção a única casta nobre tinta da região. Por ser uma casta muito precoce, com pouco rendimento e muito suscetível à podridão, os viticultores preferiram o plantio de outras mais resistentes e mais produtivas.

Esta casta é também conhecida em França, por Trousseau (de Jura), em Espanha, por Merenzao (da Ribera Sacra), que dá tintos extraordinários, ou no Novo Mundo por Gros Cabernet (na Austrália e Africa do Sul), onde pode entrar nos lotes de licorosos.

Neste momento temos na região pouco mais que um hectare de Bastardo, na sua grande maioria em São Jorge, projeto de recuperação desta variedade na ilha, que se iniciou no início do milénio pelo Dr. Teófilo Cunha, atual presidente da Câmara Municipal de Santana, que teve a coragem de apostar em algo que ninguém apostaria. Na adega, esta variedade geralmente é a primeira a iniciar a vindima, já com alguma doçura, mas já com degradação da acidez, ou seja, com pouca proteção natural. Desta forma, mostra-se muito sensível à oxidação e, a acidez volátil, pode ser um problema. Em todo o caso, bem cuidada, é sem dúvida filha legítima, pois confere vinhos extraordinários em licorosos e a sua componente de rápida evolução é um fator interessante, com baixa intensidade de cor que, normalmente, apresenta precipitação mais rápida e, com menos tempo de envelhecimento, fica com um carácter mais velho quando comparada com qualquer uma das outras variedades.

Ainda é possível encontrar Bastardos generosos de grande qualidade nos vinhos da Madeira. Lembro-me de alguns que provei, por exemplo o Bastardo 1927 do Pereira de Oliveira no seu estilo mais clássico, do Bastardo 1954 da Blandy´s, um vinho igualmente extraordinário e, mais recentemente, do Bastardo 50 Anos da Barbeito, que ganhou o prémio de melhor licoroso do país, competindo com outros da irmandade dos fortificados, como Madeiras de casta branca, Portos e Moscatéis. Qualquer um deles raros exemplares, todos eles legítimos por serem grandes vinhos, mas que se encontram praticamente esgotados. Quem o quiser ainda vai a tempo, depois quem ficou, ficou, quem não ficou, ficasse.