Uma Só Saúde para manter a eficácia dos antibióticos

O medicamento é a tecnologia em saúde mais custo efectiva, com um cunho de positividade sem par, no que concerne à mortalidade, qualidade de vida e prevenção de doença, no entanto o desenvolvimento de um novo medicamento envolve um período temporal longo e dispendioso, é necessário ter presente que em média, partindo de 10000 moléculas promissoras, passados 6 anos apenas 5 moléculas entram em ensaios clínicos e no final, passados 10 anos ou mais, obtemos 1 medicamento.

O resultado é esta tecnologia em saúde que melhora de uma forma ímpar a eficiência dos sistemas de saúde, dando razão ao aforismo de promover mais anos a vida e mais vida aos anos.

Na conferência do Dia Europeu de Sensibilização para os Antibióticos de 2018, o mote foi “One Health to Keep Antibiotics Working”, traduzido no tema do artigo. A importância do medicamento é temática sempre actual (não coadunável com o descrédito e desvalorização do mesmo, que se assiste em discussões vazias sobre preços, quando inúmeros medicamentos custam menos que uma caixa de pastilhas elásticas, e alguns governantes e alguma comunicação social colocam o enfoque no populismo bacoco e acéfalo de busca de audiência e voto, sobre o preço e não no que é cientificamente concretizável que são os ganhos em Saúde visíveis com a sua utilização racional) e no caso particular dos Antibióticos(AB) assume contornos de desígnio mundial, quando em 2017 a OMS vem alertar para a “séria escassez” de AB novos em desenvolvimento (51 em 2017 sendo que apenas 8 eram promissores), em que a espada de Dâmocles paira sobre nós, até 2050 são esperadas 40 mil mortes em Portugal (somos um dos 4 países na europa onde o risco da resistência é maior, apesar de ter vindo a diminuir, com 11,3 mortos por 100 mil habitantes/ano, a média da OCDE é de 4,72), 2.4milhões na Europa, Austrália e EUA (OCDE) por resistência aos AB.

O mais recente estudo do Eurobarómetro apresentado, refere que 20% dos AB foram utilizados para uma gripe ou constipação e 7% das pessoas tomaram-nos sem receita médica, se aliarmos a estes dados claramente negativos, que 70% das bactérias que podem causar infecções já são resistentes a pelo menos um tipo de AB usado para tratá-las, e que os bebés e idosos são as principais vítimas desta resistência aos antimicrobianos, percebemos a dimensão desta Tempestade Perfeita.

O facto das Bactérias serem Darwinistas “Survival of the Fittest”, com uma capacidade de adaptação ímpar, leva naturalmente às resistências, mas estas aumentam extraordinariamente com a má e excessiva utilização dos AB, aliado ao deficiente controlo de infecções e inadequada higiene, sendo válido para os humanos e para os animais. Daqui nasce o conceito de Uma Só Saúde, pois o Ambiente os Animais e seres Humanos tem de fazer parte da equação (75% das doenças emergentes são de origem animal), observemos que 70% dos AB consumidos na Europa são utilizados na criação de animais para alimentação, os quais tornam-se portadores de bactérias resistentes (pressão adaptativa externa pelo AB) sendo depois transmitidos aos vegetais pelos estrumes utilizados como fertilizantes, e o Homem no fim da cadeia consome esta carne e vegetais, ficando em risco.

Uma política séria na prossecução da diminuição da resistência antimicrobiana tem de ter em consideração este conceito de Uma Só Saúde, actuando em vários níveis, agro-pecuária com redução da utilização de AB para os mínimos necessários, nos profissionais de saúde alertando para as normas de orientação clinica e terapêutica no acto de decisão de prescrição e dispensa (redução da utilização de largo espectro), não havendo dispensa de AB sem apresentação da Receita (não há justificação técnico-científica para “adiantar” AB, nem as prescrições por telefone existem no texto de lei), para a industria é necessário adequar as apresentações dos AB para a quantidade necessária para as tomas de acordo com a mais recente evidência cientifica para não gerar desperdício (os AB que sobram infelizmente nem sempre são eliminados no sistema correcto das farmácias Valormed, mas sim no lixo comum e sanitas, indo parar ao meio ambiente, gerando resistências, ou a tentação de tomar erradamente numa situação posterior sem vigilância médica), para o cidadão, campanhas de educação e literacia em saúde em que as medidas de prevenção de infecções como a higiene de mãos, medidas de etiqueta respiratória (ex: tossir para o antebraço),comportamento defensivo (ex: evitar zonas com muitas pessoas em períodos de gripe), importância da vacinação, e conhecimento cientifico (querer repetir um AB porque foi o ultimo que usou e resultou, é um erro, só o escrutínio médico é solução).

Uma Só Saúde, depende de todos nós!