A insustentável leveza do desconhecimento

Imaginemos, por piada, que uma equipa de futebol tinha um treinador de sorriso fácil e que punha a equipa a jogar um futebol vistoso, diferente, mesmo que não ganhasse nem mais nem menos troféus do que o seu antecessor.

Imaginemos que este treinador, para conquistar os adeptos, chega a dizer que joga à bola, sem nunca ter sido profissional, ou sequer o primeiro aquando da escolha das equipas no recreio da escola. Num jogo mais a sério, de grande importância, chega a meter o pé à bola, tropeçando nesta e valendo-lhe um árbitro condescendente que o deixa escapar apenas chamuscado com um aviso.

Agora avancemos para uma desastrosa derrota contra o seu rival mais directo. Uma goleada merecida, digamos. Talvez tenham sido os jogadores que estavam num dia mau, sem inspiração ou vontade que lhes valesse. Talvez tenha sido a táctica do treinador, ou mesmo a sua relação embirrenta com os jogadores lhes tenha tirado a tal vontade, a causar tal derrocada. De qualquer das formas, como líder e responsável pela equipa, é ao treinador que os jornalistas e adeptos pedem respostas e responsabilidades.

Agora imaginemos que os sócios e adeptos de sangue na guelra querem que alguém sofra consequências, e que o dito treinador não quer perder o emprego — ou a hipótese de mudar para uma equipa de campeonato maior. Que faz este treinador? Esquece-se. Desconhece. Quando lhe perguntam porque razão o médio centro, capitão de equipa, jogou a guarda-redes, desconhece o jogador em questão. Quando questionado acerca da sua escolha para treinador-adjunto, desconhece que o técnico em questão tenha sequer sido contratado. Não sabe que tem guarda-redes, treinador de guarda-redes, ou equipa B onde ir buscar novos jogadores. Desconhece. Desconhece que haja sequer tratador para a relva — uma exigência sua durante as negociações do seu contrato. Desconhece as tácticas da equipa e não sabe em que estádio joga em casa. Desconhece que cores compõem os equipamentos com que os seus jogadores (desconhece quase todos, afinal) entram em campo. A páginas tantas, ficamos também a saber que não sabe quantos devem entrar em campo. Desconhece. É preciso uma bola? Desconhece de novo.

No fundo, nega tudo, incluíndo que é o treinador. Se não sabe quem contrata, quem treina, nem que desporto treina, só pode estar investido de uma imensa incompetência mal disfarçada, ou de uma lata descomunal. Qual das duas opções a pior? Desconheço. Venha o diabo e escolha.

Agora imaginemos — com grande dificuldade e incredulidade, concedo — que a equipa em questão é todo o aparelho da Câmara Municipal do Funchal, e que o treinador é o seu presidente. Imaginemos que, depois da tal catástrofe, o treinador prefere atirar às chamas o adjunto (ou adjunta, no caso) e o capitão de equipa, a assumir sequer que é treinador. Desconhece.