Natal com analgésicos

O Natal está aí à porta.

Altura das sandes de carne de vinho e alhos, ponchas, bolos de mel, broas e licores. A matança do porco também já deve de andar por aí, depois de meses a engordar o bicho, mas neste momento quem está em período de engorda sou eu.

O Natal é apenas mais uma época, pelo menos para mim. A minha ligação ao Natal, por mais estranho que possa parecer, é quase nula. Tenho recordações muitas e boas, mas nunca houve aquela ligação especial, gosto do ambiente e acho que é só isso, é provável que seja a minha veia niilista a falar. Não deliro com a época, o acender de luzes não me causa particular excitação, prefiro um vestido de mãe natal sexy, as missas do parto são um sacrifício tremendo, e os licores, ponchas só levam vantagem como analgésicos para a temporada.

Talvez este sentimento tenha a ver por ter crescido numa casa em que época é vivida com intensidade, pode parecer contrassenso e é provável

que seja, mas penso que durante a minha vida sempre tive o espírito natalício envolto nas pessoas que me rodeiam e não precisei de criar o meu.

Confesso que tenho saudades do cheiro nauseabundo a anis que inundava a casa nesta altura ou dos presépios monstruosos criados com arte e engenho, primeiramente pelo meu avô (curiosamente ostentava o mesmo nome do rapaz sexy que se apresenta no canto superior esquerdo desta crónica) e posteriormente pelo Berlim do meu irmão. Sinto falta da canja da minha avó e dos bolos da minha tia... Ah, como essa época de engorda era boa.

Atualmente alguém tenta colocar-me no lugar e fazer com que acredite na magia do natal. É uma tarefa árdua, estou a ficar num velho rabugento mais parecido a um Grinch que um Whos. Acredito que eventualmente me converta às luzinhas, aos presépios, às missas do parto e a isso tudo pelas razões certas, sem ser para os analgésicos.

​VINCE GUARALDI TRIO

A CHARLIE BROWN CHRISTMAS

Voltando ao tema de abertura. Se há álbum que deverá de fazer parte da coletânea de músicas natalícias, para além dos tradicionais de jazz vocal, à falta de melhor expressão, é este disco composto inteiramente com o propósito a fazer de banda sonora do especial de natal da célebre série de desenhos animados Peanuts, criada por Charles M. Schulz.

Durante 14 faixas temos o espírito natalício que Charlie Brown tinha perdido por intermédio do trio de Vince Guaraldi que eleva as tradicionais músicas de natal para o campo de jazz que nunca antes tínhamos vistos. É um álbum para acompanhar à lareira.