"I spique da tru"

Há momentos inesquecíveis. Um desses foi a intransigente defesa da liberdade de expressão por parte do ex-treinador do FC Porto, Vítor Pereira, numa conferência de imprensa na Arábia Saudita que ficou para a história. Num inglês duvidoso, Vitor Pereira insurgiu-se contra quem lhe queria cortar a palavra, exclamando a plenos pulmões “I spique da tru”. Vitor Pereira falou a verdade, mas ninguém lhe quis ouvir.

Neste breve momento estão em causa duas realidades: a importância da verdade e o ‘fact-checking’ ou a verificação dos factos.

Há vários estudos sobre o comportamento das pessoas ‘comuns’ na sua relação com a verdade/mentira. Todos concluem que mentir é um evento do nosso dia a dia. Um desses estudos, publicado em 1996 no Journal of Personality and Social Psychology, é a grande referência para as pesquisas sobre as mentiras quotidianas, e esse chega a esta conclusão: apesar da mentira existir as respostas também mostraram que os mentirosos não estavam orgulhosos. Homens e mulheres descreveram os momentos em que disseram a verdade com muito mais prazer do que aqueles em que mentiram. Os participantes também justificaram as suas mentiras como mais ligadas à preocupação de não ferir os sentimentos de alguém ou se sentir mal com a verdade, do que por interesse pessoal ou vontade de tirar vantagem de alguém. A verdade é, no entanto, mais problemática. A nossa própria experiência ensina-nos que não é possível dizer sempre a verdade, nem na vida privada, nem na vida pública, pela simples razão de que há sempre aspectos da verdade que não favorecem as nossas opiniões ou projectos ou que efectivamente irão atingir negativamente outras pessoas. Em suma, toda a gente mente!

Há uma frase popular que diz que para ver um político mentir basta vê-lo mexer os lábios. De facto, a relação da política com a verdade é muito complicada. Dificilmente alguém sobrevive na política falando expressa e unicamente a verdade nua e crua, apontando os seus vícios, as suas deficiências técnicas, morais e culturais, oriundas, grande parte, da vontade colectiva e dos costumes por vezes corrompidos pelo próprio povo. Dificilmente uma campanha eleitoral será bem sucedida se o candidato não cumprir com o cardápio da crítica e da promessa. Ou não será credível ou não será sério. Ora, se o objectivo de um político é agradar para ser eleito, não pode, de todo, ser desagradável. Então como descalçar esta bota?

Importa ressalvar o que se entende por verdade para a política. Se entrarmos pelos campos da filosofia ou metafísica, nunca mais chegaremos a lugar algum, pois a discussão é eterna. A religiosa tem o défice da actualização e não é aceite por todos. A científica não responde em tempo útil à urgência da decisão. Pelo que resta a factual, aquela que é advinda dos relatos que podem ser verificados por qualquer pessoa, tratando-se de uma verdade acessível a todos. E atenção que isto não é qualquer novidade. Aristóteles já reconhecia a importância de considerar os factos como elemento essencial de qualquer decisão. Maquiavel defendia que a política deveria decorrer de um raciocínio lógico e fáctico. Uma passagem pelos grandes estadistas verificamos que a política sempre dependeu dos factos e o pensamento político sempre reivindicou os factos, sem prejuízo de naturalmente sempre existir espaço para a opinião. Destrate, esta factualidade depende de todos os outros. Depende da capacidade de verificação dos elementos da comunicação social. Depende de iniciativa crítica de cada cidadão. E é aqui se vive o grande perigo.

Não pode desde logo haver demissão de quem tem a responsabilidade de verificar todos os factos, a começar por todos os eleitores. É imperativo ainda para o apuramento da verdade fáctica que não se permita a negação desses mesmos factos. Sem eles, sem os seus registos, sem a sua observação, não há política responsável, não há política democrática. Trump insistiu que Obama tinha nascido no Quénia, apesar de ser um facto falso e facilmente verificável. Insistiu ainda que na sua tomada de posse havia mais gente que na posse de Obama, apesar de todas as fotografias apontarem o contrário. Quando confrontado com tais elementos apelidou-os de “fatos alternativos” e lá continua. Até por cá, o Sr. Secretário de Estado declarou em plena discussão do Orçamento que o Governo da República iria financiar 50% da despesa do hospital da Madeira, incluindo o IVA e sem que tal envolvesse o ‘desconto’ dos edifícios já existentes, tudo isto apesar da Resolução do Conselho de Ministros n.º 132/2018, de 10 de outubro, dizer precisamente o contrário! Facto. E continua.

É nesta verdade que a política deve se basear pelo simples facto de ela poder ser atestada por qualquer cidadão e por se tratar de uma verdade acessível a todos. Mas sempre que a política se distancia dos factos e consequentemente da verdade é a sociedade que perde. Por isso, todos nós temos também de fazer o nosso papel!