Musicoterapia Neurológica: o seu papel na reabilitação

O desenvolvimento das neurociências e das técnicas de neuroimagem, nas últimas quatro décadas, possibilitou compreender a resposta do cérebro à música. A música e os seus elementos constituintes (ritmo, melodia, etc.) são potentes estímulos auditivos que ativam várias áreas cerebrais. Dado que o cérebro é plástico, isto é, tem a capacidade de modificar e reorganizar a sua estrutura e função, a música e o ritmo podem ser usados na reabilitação de várias patologias neurológicas (neuroreabilitação).

No final da década de 90, investigadores e clínicos da área da musicoterapia e das ciências neurológicas desenvolveram o conceito de “musicoterapia neurológica” (MTN). Os fundadores foram Michael Thaut, Gerald McIntosh, Volker Hoemberg, Corene Thaut e Ruth Rice. A musicoterapia neurológica pode ser definida como a aplicação terapêutica da música para estimular mudanças nas áreas cognitivas, motoras e de linguagem após uma doença neurológica.

A MTN é uma especialização da musicoterapia tradicional. Baseia-se em modelos neurocientíficos de perceção cerebral e consta de 20 técnicas validadas e padronizadas. As aplicações clínicas destas técnicas podem ser subdivididas em três domínios de reabilitação: sensório-motora; fala e linguagem; e cognitiva. A MTN pode ser usada no tratamento de indivíduos com: autismo, demências (incluindo a doença de Alzheimer), doença de Parkinson, síndrome de heminegligência, traumatismos cranianos, esclerose múltipla, acidentes vasculares cerebrais (AVC), e outras doenças da cognição, do movimento e da comunicação, estejam hospitalizados ou no domicílio.

Os cursos de formação em MTN são ministrados pela Robert F. Unkefer Academy of Neurologic Music Therapy. É dirigida a musicoterapeutas, dado que é uma especialização da musicoterapia, mas não só. É interdisciplinar e aberta a outros profissionais de saúde dedicados à reabilitação de patologias neurológicas. Estes (médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e da fala), podem tornar-se profissionais associados/afiliados desta academia, aprendendo e adaptando os princípios e materiais da musicoterapia neurológica à sua prática clínica. A visão dos fundadores é tornar a MTN o padrão de excelência na musicoterapia, e a disseminação e integração desta técnica nos cuidados de saúde, em todo o mundo.

Frequentei a formação em MTN na faculdade de música da Universidade de Toronto, onde o Professor Michael Thaut é, também, diretor do Programa Colaborativo de Investigação em Música na Saúde. Michael Thaut (músico, musicoterapeuta, neurocientista), para além da excelência técnico-científica, demonstra e incentiva comportamentos de colaboração e cooperação entre os vários profissionais de saúde envolvidos na reabilitação. Só com uma visão colaborativa e respeito por todas as profissões de saúde poderemos criar uma saúde melhor para todos!

O curso é aprovado pela World Federation of Neurologic Rehabilitation e pela European Federation of Neurorehabilitation Societies. De destacar que, o livro “The Oxford Handbook of Neurologic Music Therapy” de Michael Thaut e Volker Hoemberg, publicado em 2014, recebeu o 2º prémio da British Medical Association, em 2015, na categoria de melhor novo livro na área da Neurologia. Aos interessados na formação, podem obter mais informações em https://nmtacademy.co/.