Ainda sobre o valor da vida...

Ainda na sequência do meu último artigo “O valor da vida”… quando o escrevi estava longe de pensar o que na realidade estava ainda por acontecer.

Na altura escrevi porque a minha irmã estava com um problema bastante grave a nível cardíaco e estava internada no Hospital de São João, no Porto. No dia seguinte a escrever o referido artigo fui para o Porto, apoiar a minha irmã e restante família. No entanto, deparo-me com mais um problema, igualmente grave: sem que nada o fizesse prever, o meu pai tinha igualmente um problema grave a nível cardíaco e teria que ser operado de urgência “pois é por problemas assim que se dão as mortes súbitas”, palavras do reconhecido cirurgião cardio-torácico. E nunca tivera nenhum sintoma, um exame de rotina levou a esta terrível (mas atempada!) descoberta.

O cenário era, no mínimo, caótico. A minha irmã nos cuidados intensivos do Hospital de São João e o meu pai a preparar-se para uma cirurgia cardíaca, sem que a minha irmã pudesse saber de nada, pois não podia ter emoções fortes devido à sua condição muito fragilizada. E a minha mãe, o pilar da família, a zelar por ambos. A tentar tranquilizar o meu pai e a fazer-se “forte” para que a minha irmã nada desconfiasse. E, entretanto, eu tive que regressar à Madeira, por uns dias, é certo, com o coração apertado, receando que pudesse acontecer o pior e eu longe…

A minha mãe mantinha-se firme, apoiando o marido e a filha, assegurando a ambos que tudo correria bem. “Eu tenho fé!”, dizia. E agarrava-se a essa fé como a sua tábua de salvação. Entretanto, em chamadas comigo, chorava. Chorava de medo, de desespero, de desabafo, de exaustão emocional. Limpava as lágrimas, agarrava-se à sua fé e continuava a lutar pela sua família. Visitava a minha irmã, acompanhava o meu pai, cuidava dos netos…

Regressei ao Porto com a missão de apoiar a família, nas coisas práticas do dia-a-dia e também com o sentido de união emocional.

Os dias que se seguiram foram difíceis. Foi difícil conseguir gerir as emoções que estavam à flor da pele, quer minhas, quer dos meus familiares. Tive que colocar em prática tudo o que sei sobre gestão emocional, resiliência, gestão de stress… “em casa de ferreiro espeto de pau”, diz o povo, mas a verdade é que, de alguma forma, fui conseguindo gerir-me e gerir o que se passava à minha volta. Ouvia preocupações de um lado e de outro, corria (literalmente) para resolver imprevistos, estava onde era preciso estar. No fim do dia sentia-me exausta física e emocionalmente, mas a noite ajudava a recuperar para o dia seguinte.

O frio e a chuva que, entretanto, se instalaram no Porto em nada ajudavam, como a minha mãe dizia “o tempo está triste…”.

A minha irmã, entretanto, foi operada e teve alta. Foi para casa recuperar de uma situação que poderia ter tido um final trágico. É uma guerreira, que lutou e luta para acompanhar a família fantástica que construiu e que tanto precisa de si!

O meu pai foi operado… dia complicado. Eu e a minha mãe estávamos na sala de espera dos cuidados intensivos ansiosamente à espera que a cirurgia terminasse e que alguém nos desse alguma informação. As horas passavam e a ansiedade aumentava. A minha mãe mostrava o medo, a ansiedade, o desespero. Falava de alguns casos seus conhecidos de cirurgias cardíacas que tinham corrido mal e que as pessoas não tinham sobrevivido… era o que a atormentava nesse momento. E dizia trémula “já passou tanto tempo… será que está a correr alguma coisa mal?”. E acrescentava “Nós não somos diferentes dos outros…”, mas agarrava-se à sua fé.

Quando o cirurgião chegou àquela sala e disse que tinha corrido tudo bem suspiramos de alívio. Depois de uma visita extremamente breve ao meu pai saímos da unidade de cuidados intensivos e abraçamo-nos. Choramos, choramos muito, por longos minutos permanecemos abraçadas. Um turbilhão de emoções tomou conta de nós, mas o sentimento de alívio foi tão grande!

Agora, quer a minha irmã quer o meu pai, estão a recuperar no aconchego de casa, da nossa casa. A minha mãe continua a cuidar de ambos. Apesar de esgotada, sente-se tranquila pois os seus estão bem e sobreviveram àquele que poderia ser um final trágico.

Regressei à Madeira e, mesmo ao longe, estou atenta à minha família, às suas necessidades, mantendo-me a fiel confidente das preocupações da minha mãe, essa mulher fantástica, pilar da nossa família.

Nunca sabemos que oportunidades a vida nos dá para enganarmos os finais trágicos, mas de uma coisa tenho certeza: estando a família unida, esses momentos são menos difíceis de enfrentar.