Cuidar dos cuidadores

O que têm profissionais de saúde e de saúde mental, professores e assistentes sociais em comum? Certamente que várias coisas, mas uma especialmente relevante: por exercerem profissões cujo cerne envolve lidar com pessoas e dedicar-se a estas, estão especialmente sujeitos a stress e a burnout. Naturalmente que o stress e o burnout, e os diversos riscos psicossociais no local de trabalho, existem em todas as profissões. No entanto, os problemas de desgaste psicológico nas chamadas profissões de ajuda é significativo e merece a nossa atenção, de forma a que os mesmos sejam evitados e se possam promover melhores condições para a prática profissional e assim se garanta melhor qualidade aos serviços que são prestados aos cidadãos.

O cerne da atividade destas profissões envolve uma atenção e dedicação à compreensão da situação do outro, tendo em vista a promoção da sua capacidade de lidar com as dificuldades que enfrenta e com os desafios do desenvolvimento. É exigente do ponto de vista da concetualização e do foco na realidade de cada pessoa, sobretudo quando as solicitações são múltiplas e variadas, e os profissionais estão frequentemente sozinhos na sua ação. Ora, dia após dia, ano após ano, a esse foco permanente associa-se um desgaste, que tem muitas vezes uma natureza insidiosa e silenciosa.

Por todos estes motivos, é essencial que se trate de condições que previnam riscos psicossociais, de forma a que os profissionais que lidam com pessoas possam realizar melhor com as suas tarefas e ter melhores condições de bem estar. Isto implica naturalmente condições de trabalho adequadas, quer do ponto de vista de recursos materiais, quer de lideranças e da organização do trabalho. Implica também o acesso a oportunidades para que cada profissional possa discutir com os seus colegas, de forma organizada e sistemática, as suas dúvidas e questões da prática, bem como a existência de acesso à orientação de colegas mais experientes e conhecedores para lidar e discutir casos da prática (a designada supervisão).

Mas, ainda que sejam determinantes as questões organizativas ou institucionais, relacionadas com a forma como funcionam os locais de trabalho, o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal de cada profissional continua a ser central, quer para o seu bem estar, quer para a qualidade do trabalho que entrega à comunidade. Porque antes da técnica vem o profissional, e antes do profissional vem a pessoa, não podemos ignorar a importância do autocuidado, do autoconhecimento e da reflexão pessoal, associada às questões de saber e de competência técnica. Na verdade, ninguém está realmente preparado para cuidar do outro, se não se conhecer a si próprio e não estiver também a cuidar de si.