O sonho comanda a vida

Quem me conhece desde pequenina sabe que a música sempre fez parte da minha vida, por influência paterna. A paixão pela medicina nasceu mais tarde, já na adolescência, e levou-me aos estudos fora da Madeira. Sem dúvida, que um dos meus sonhos era unir os meus dois amores: a música e a medicina.

Hoje vou partilhar um acontecimento marcante, que considero ter sido a semente que motivou o meu interesse quer pelas neurociências da música (como o cérebro processa a música), quer pela musicoterapia e música-medicina.

Tinha eu vinte anos quando o meu avô paterno sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), que o deixou em coma. Estávamos no Outono de 1996, e eu frequentava o 3º ano do curso de medicina, no Porto. A distância não permitia que o fosse visitar ao Hospital dos Marmeleiros no Funchal, causando frustração e tristeza. Tinha de aguardar pelo regresso a casa, nas férias do Natal. Por coincidência ou não, tinha lido na revista Selecções do Reader Digest´s, o relato de uma paciente, mestrina de profissão, que após um AVC tinha recuperado ao ouvir as suas crianças cantar. Dado o enorme envolvimento do meu avô na música, por tocar violino (era conhecido como mestre José da Rabeca), sugeri ao meu pai que perguntasse ao médico se poderíamos levar gravações do meu avô, e explorar esta ideia da audição de música familiar. Com a devida autorização médica, levámos o gravador/leitor de cassetes e registos do meu avô a tocar as suas canções preferidas. Ao ouvir a sua música, a mão do meu avô apertou a minha, o que para mim foi um momento extraordinário. Foi um sinal! O meu avô nunca recuperou, dada a gravidade da situação, e acabou por falecer passado uns meses. Mas esta experiência inspirou o meu destino.

A partir dessa ocasião, nasceu uma vontade imensa de compreender os mecanismos cerebrais envolvidos no processamento da música e seus constituintes (ritmo, tempo, melodia, timbre, harmonia, etc.), e como poderiam ser usados para fins terapêuticos. Atentos aos meus gostos, família e amigos ofereciam-me livros sobre o tema, o mais relevante intitulado “Música, cérebro e êxtase” enviado pelo primo Mário, do Brasil. Mais importante, a vida apresentou-me oportunidades, que aproveitei, para aprofundar conhecimentos, como o ensino artístico especializado no Conservatório de Música da Madeira, o mestrado em neurociências e o doutoramento que frequento atualmente.

Neste momento, ao ver publicada, como primeira autora, uma revisão da literatura e meta-análise sobre as bases neurológicas envolvidas na audição de música familiar e de música desconhecida, sinto que cumpri uma promessa que fiz a mim mesma, há mais de 20 anos. Estou profundamente realizada pelo propósito alcançado. Igualmente grata a quem me apoiou. Valeu a dedicação, a persistência, e a coragem de acreditar em mim. Um sonho que, em outros tempos, parecia inatingível, tornou-se realidade. Que sirva de inspiração, a quem precisa!

Futuramente, desejo empenhar-me na implementação da música (e das artes) nos cuidados de saúde em Portugal, equiparando ao que já acontece na América do Norte. Intervenções como a musicoterapia e a musica-medicina podem ser utilizadas com sucesso. Na Madeira existem muitos profissionais de saúde com conhecimentos e talentos musicais. Desafio-os a frequentar formações específicas, no sentido de usarem as suas aptidões artísticas em benefício dos utentes! Um incentivo especial aos musicoterapeutas que aguardam a legítima regulamentação profissional. Como escreveu António Gedeão, “o sonho comanda a vida”! Vamos todos sonhar e ter esperança!

Obrigada avô! Um beijinho cheio de saudades!