A política, os jovens e as eleições

Há muito que se fala do desinteresse dos jovens em relação ao mundo da política. Um mundo que os afecta tão directamente que, muitas vezes, nem eles se dão conta, a não ser no dia seguinte.

Não foi por acaso que, depois da votação do Brexit, 79% mostraram-se inquietos pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) devido à possível quebra de direitos e garantias. Após o referendo, cerca de 180 mil pessoas, quase todas jovens, seguiram para o Festival de Glastonbury com a bandeira da UE a cobrir-lhes o corpo. Mas a verdade é que apenas 50% dos jovens britânicos (com idades entre os 18 e os 24 anos) que eram a favor da permanência do Reino Unido na UE foram votar. Dos que votaram, 75% defendia o sim no bloco europeu, precisamente a votação contrária à da faixa etária dos 69 anos, que votou pela saída do Reino Unido da UE.

Muitos destes jovens saíram à rua, e a sua ira foi visível quando 50 mil deles marcharam em Trafalgar Square, num encontro que já tinha sido desmobilizado nas redes sociais. Não havia, porém, maneira de voltar atrás. A frustração tomou conta da juventude britânica. Entendiam que os mais velhos os tinham traído e arruinado o seu futuro. Mas, se calhar, também eles foram responsáveis: a maioria não votou. De referir que um novo referendo foi pedido pelos jovens e conta com mais de 3.5 milhões de assinaturas. Bom sinal. Sabem o que querem.

Iniciei este artigo com a descrição do processo do Brexit e da juventude britânica porque um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos deixou-me particularmente preocupada. Há um claro divórcio entre a política e os jovens. Por muito que as juventudes partidárias (em Portugal as quatro maiores contam com mais de 90 mil militantes) por esta Europa fora tentem resgatá-los para a reflexão e discussão política, e até mesmo ideológica, eles não se querem aproximar. Mas será que é uma questão de vontade? Não creio. Parece-me que há uma indignação generalizada pelo vazio deixado pelos próprios políticos, que muitas vezes os menorizam. Fomos nós, os adultos, que nos demitimos deles pela simples razão de que isso implica responsabilidade.

Uma das razões evocadas pelos jovens para a sua não participação nas eleições é o facto de não se identificarem com os candidatos, muitas vezes distantes da sua faixa etária. Em relação ao Parlamento Europeu, a idade média na legislatura de 2004-2009 foi de 49 anos. Na legislatura actual (2014-2019) a idade média é de 55 anos. Os eurodeputados portugueses têm uma média de idades de 53 anos. A Bulgária é o país com a média de idades mais baixa (47 anos) e a Polónia é o país com a mais alta (60 anos).

A nível nacional há cada vez menos jovens a ocupar lugares na Assembleia da República. A idade média dos deputados eleitos em 1976 era de 42 anos. Em 2015 a idade média passou para os 48 anos.

Segundo dados da OCDE, 41% dos deputados dinamarqueses têm menos de 40 anos. Em Itália são 33% e em Portugal 23%. A média da OCDE é de 21%. Números mais problemáticos surgem em França (8%), nos EUA (7%) e no Reino Unido (1%).

Em Portugal, mais de 57% dos adolescentes e jovens dizem não ter qualquer interesse pela política (dados de 2015). O 12 de março de 2011 foi um dia histórico no nosso país, ao demonstrar que a política não se faz apenas dentro dos partidos. Uma “geração inteira”, “à rasca”, saiu à rua em vários pontos do país para a maior manifestação feita após o 25 de Abril. A manifestação teve o mérito de trazer para a opinião pública o debate sobre a precariedade e sobre os direitos laborais dos jovens.

Da geração Erasmus esperamos uma maior participação na vida pública. Os jovens têm um valioso poder de decisão, principalmente num momento em que o discurso antieuropeu cresce. A Europa precisa de renascer e só o poderá fazer com a força da juventude que, mais do que ninguém, ama a Liberdade. É preciso que os jovens pró-europeus votem e façam valer a sua representação. Se Portugal tivesse passado por um processo semelhante ao do Brexit, tenho a certeza de que a juventude portuguesa defenderia o país como parte integrante desta União. A minha pergunta é outra: teriam ido votar?