Síndrome do Coração Partido: morrer com a “mão no coração”

Em novembro passado, no aeroporto do Funchal, foi relatado o caso de um emigrante de 73 anos, residente no Curaçao, que faleceu após ter sido acometido de doença súbita, na altura em que se dirigia para a porta de embarque. Não tive conhecimento da causa da morte. Contudo, a minha experiência, e situação atual, de residente temporária no estrangeiro, empatiza e valida esta dor que é deixar a Madeira, e os entes queridos, sem saber quando, e se, nos voltamos a ver. São despedidas vividas intensamente, de ficar com o “coração partido”.

Esta metáfora, “coração partido”, descrita por poetas e filósofos, e usada em poemas, músicas e cartas de amor, tem um significado em medicina. Emoções fortes, causadoras de dor ou aperto no coração, alcançaram o patamar de doença, chamada de Síndrome do Coração Partido, Miocardiopatia de Takotsubo, ou Miocardiopatia de “stress”.

É uma doença rara e transitória do músculo cardíaco, que pode surgir de forma súbita após uma situação de intenso impacto físico ou emocional (de carater positivo ou negativo). Exemplos de emoções positivas intensas são: ganhar a lotaria ou assistir à vitória dramática da seleção de futebol. As emoções negativas podem desenrolar-se após: notícias de morte inesperada de um ente querido; o fim de um relacionamento (separação, divórcio); descoberta de uma traição; perda súbita de emprego ou dinheiro; acidentes; assalto armado; ou até uma discussão acesa com alguém. Contudo, em cerca de um terço dos doentes não é possível encontrar o fator desencadeante.

Os sintomas mais comuns são a dor no peito e a falta de ar, que podem simular um enfarte agudo do miocárdio, com alterações no eletrocardiograma. A teoria mais aceite sobre o mecanismo fisiopatológico subjacente, refere que o abalo físico ou emocional desencadeia a libertação exagerada de adrenalina e hormonas de “stress” na corrente sanguínea. A adrenalina provoca uma constrição difusa e temporária das artérias do coração, atrapalhando o funcionamento do ventrículo esquerdo. Na verdade, o ventrículo esquerdo fica parado na sístole (contração muscular), resultando numa imagem semelhante a um coração partido, em forma de balão. Os médicos japoneses que descreveram esta doença pela primeira vez, em 1990, estabeleceram uma analogia entre a imagem do coração partido e uma armadilha usada no Japão para capturar polvos. Daí o nome, tako (polvo) + tsubo (vaso, pote). Desde então, esta forma de miocardiopatia tem sido reconhecida em todo o Mundo, sendo que o total de casos relatados na literatura médica não passa dos 200.

Cerca de 90% dos casos ocorrem no sexo feminino (após a menopausa) e a média de idade dos pacientes é de 66 anos. O tratamento não é específico, mas, sim, de suporte, direcionado para os sintomas, e apoio psicológico. A síndrome dura entre 7 a 30 dias, tem evolução benigna e prognóstico favorável. A taxa de mortalidade é baixa, menor que 5%.

Apesar de ser uma disfunção transitória, em alguns casos raros, esta síndrome pode ser fatal. Existem referências a cônjuges, casados durante décadas, que morreram com diferença de horas ou dias. Em dezembro de 2016, a conhecida atriz americana Debbie Reynolds, de 84 anos, morreu um dia depois da sua filha Carrie Fisher, também atriz, provavelmente pelo desgosto de amor. Afinal, a ciência comprova que, é possível morrer de “coração partido”…