Consegues ler os meus pensamentos?

Todas crianças são naturalmente curiosas e espontâneas. Costumam surpreender os adultos na originalidade das suas perguntas inesperadas, mas lógicas, algumas delas bem complexas de responder.

Partilho convosco uma interação interessante com uma criança de 6 anos, participante no meu estudo de investigação, na área das neurociências.

No âmbito do projeto de doutoramento que desenvolvo no Hospital SickKids, em Toronto, estudo como o cérebro das crianças reage a diferentes tipos de músicas (familiares e desconhecidas), utilizando uma técnica de neuroimagem chamada magnetoencefalografia (MEG). Esta técnica mede a atividade do cérebro humano por meio de deteção dos campos magnéticos produzidos pelas correntes elétricas que existem espontaneamente no cérebro. Tem muitas semelhanças com a eletroencefalografia (EEG), técnica que regista a atividade elétrica do cérebro e, que revolucionou a neurologia.

Na fase de consentimento e preparação da criança para a realização do estudo, é obrigatório mostrar os aparelhos e explicar, de forma sucinta e adequada à sua compreensão, um pouco sobre do funcionamento das “máquinas”, e os écrans onde visualizamos o traçado das ondas cerebrais, e respetivos ritmos (alfa, beta, etc). Acontece que, uma das crianças, ao aperceber-se que eu iria observar as “suas ondas cerebrais”, questionou-me, muito preocupada: “Consegues ler os meus pensamentos?” Esta pergunta inocente, motivou risos entre os pais, equipa técnica e claro, explicações mais detalhadas ao menino. Evidentemente, esclareci que não conseguia ler os pensamentos, mas, sim, nomear as partes do cérebro que estariam sendo ativadas, durante a audição das músicas.

Contudo, achei brilhante e deliciosa a sua curiosidade, e ainda lhe contei a história que conduziu à invenção do EEG. É que foi, surpreendentemente, a motivação de Hans Berger em compreender a telepatia (transmissão de pensamento entre duas pessoas), que impulsionou o desenvolvimento desta tecnologia, em 1924. De facto, já dizia Platão, “a necessidade é a mãe da invenção!” Neste caso, a necessidade de compreender a mente!

Em 1892, durante um treino de cavalaria no serviço militar, Hans Berger, na altura com 19 anos, foi vítima de um acidente quase fatal. A sua irmã, que estava a muitos quilómetros de distância, teve um pressentimento que ele estaria em perigo e insistiu com o pai para enviar-lhe um telegrama, a indagar sobre o seu estado de saúde. Esta incrível coincidência criou um impacto enorme na sua vida, pois era (e continua a ser) difícil de ser explicada pelos princípios das ciências naturais. Berger descreveu esta sincronia como “um caso de telepatia espontânea, num momento de perigo mortal, em que ao contemplar a morte, transmiti os meus pensamentos, e a minha irmã, que me era muito próxima, foi a recetora da informação”. Inspirado nesta experiência, de que a sua mente poderia ter enviado um sinal à sua irmã, estudou medicina e enveredou por uma carreira científica na área da psicofísica. Este entusiasmo durou toda a sua vida, com o objetivo de descobrir as bases fisiológicas da “energia psíquica”. Este episódio pessoal de Hans Berger, médico psiquiatra alemão, culminou com a invenção do EEG, 32 anos depois.

A telepatia continua a ser alvo de muitos estudos científicos, mas os resultados e explicações são, ainda, pouco convincentes. Muitos mistérios da mente humana permanecem por compreender. Há um longo caminho a percorrer! E que todos os esforços do Homem sejam pautados pelo rigor ético e motivados para a criação de uma vida mais próspera e feliz.