O estigma da doença mental

O estigma da doença mental é um fenómeno muito antigo, complexo e que tem sido estudado em várias áreas do conhecimento (psiquiatria, psicologia e sociologia). É uma fonte de grande sofrimento e um dos principais obstáculos no acesso aos cuidados, diagnóstico e tratamento das diferentes perturbações mentais na sociedade atual.

O termo “estigma” deriva da palavra grega steizen, que designava a marca que era gravada no corpo de escravos e criminosos. Esta marca visava assinalar os membros da sociedade com menor valor. Ao longo da história da medicina, a patologia mental tem sido marcada pela incompreensão e exclusão social. Na época de Hipócrates, as teorias vigentes atribuíam a doença mental à possessão por espíritos malignos. Hipócrates, considerado o pai da medicina, contrariou estas teorias a favor de uma perspetiva mais científica. Contudo, posteriormente a teoria demonológica voltou a ser defendida, e os indivíduos com patologia mental tornaram a ser acorrentados, negligenciados e marginalizados. No século XIX, assistiu-se ao aparecimento dos cuidados aos indivíduos com perturbações mentais, prestados inicialmente em mosteiros e posteriormente em estruturas asilares. Em meados do século XX, com o aparecimento dos psicofármacos, a reabilitação e a reintegração social destes doentes tornou-se uma realidade.

No entanto, apesar dos avanços técnico-científicos, as crenças da população em relação à patologia mental não se traduziram numa mudança de atitude. Ainda prevalece a ideia de que os indivíduos com psicopatologia são perigosos, imprevisíveis, e responsáveis pela sua doença. E, assim, o estigma persiste. Segundo Thornocroft e Mehta, o estigma assenta em três pilares: problemas no conhecimento (ignorância); problemas de atitudes (preconceito) e problemas do comportamento (discriminação). É ainda possível distinguir a discriminação individual da discriminação estrutural (como a alocação de menos recursos à área da saúde mental comparativamente a outras áreas da saúde).

A atribuição de um rótulo atinge os indivíduos com patologias graves (esquizofrenia), assim como aqueles com diagnóstico de quadros ligeiros de depressão ou de ansiedade. As repercussões manifestam-se em vários planos: diminuição da autoestima e do autoconceito; sentimentos de dor, vergonha, medo e culpa; comportamentos de evitamento, isolamento e alienação; dificuldades na concretização de objetivos pessoais e profissionais. Mais grave ainda, o estigma atrasa e condiciona, não só, o acesso ao tratamento psiquiátrico, bem como aos cuidados médicos gerais.

Existem programas e estratégias de combate ao estigma, específicos e dirigidos ao indivíduo, à comunidade e às organizações. Alguns exemplos são: o empoderamento dos pacientes desenvolvendo as suas capacidades e competências; a psicoeducação ao doente e à comunidade para melhorar a literacia em saúde mental; protesto contra as representações da doença mental sob a forma de estereótipos negativos; criação de leis antidiscriminação; defesa dos direitos dos indivíduos com patologia mental. Os profissionais de saúde têm uma função muito importante, como agentes de mudança, e podem contribuir, através da sua prática clínica humanizada, para a erradicação do estigma e para reforçar que as pessoas transcendem as suas doenças.