As potencialidades da Medicina Gráfica

A Medicina Gráfica é uma área interdisciplinar que cruza as artes gráficas com a medicina/saúde.

Nos últimos anos, a banda desenhada (BD) e outras ilustrações gráficas (digitais, na sua maioria) têm ganho popularidade devido ao seu valor e utilidade na educação e na prática clínica dos profissionais de saúde. Em 2007, o médico, artista e escritor inglês, Dr. Ian Williams criou o site intitulado Graphic Medicine (https://www.graphicmedicine.org/), que explora esta temática. Em 2016, nasceu o “site irmão” em língua espanhola, denominado Medicina Gráfica (http://medicinagrafica.com), liderado pela Dr. Monica Lalanda, médica e cartunista.

Recentemente surgiu um subgénero da banda desenhada, a patografia (“pathos” deriva do grego e significa doença, “grapho” designa descrição), que é uma narrativa sobre as doenças, na forma gráfica, a maior parte das vezes realizada pelos doentes ou familiares, como relatos autobiográficos sobre as suas experiências. O pioneiro nesta área foi Justin Green, um cartunista americano, que publicou em 1972, um álbum de BD sobre a perturbação obsessivo-compulsiva, patologia da qual padecia. Esta forma de arte poderá ser útil para os utentes e famílias compreenderem as doenças.

Existem também as infografias, que são uma modalidade de informação caraterizada pela apresentação visual de desenhos, gráficos e diagramas, acompanhados por pequenos textos explicativos, muito usados em panfletos e nos guias para utentes.

Qual a utilidade da Medicina Gráfica? No que se refere à formação dos profissionais de saúde, os grafismos têm sido um instrumento valioso no estudo e compreensão dos fundamentos da anatomia humana. Mais recentemente, nos Estados Unidos, Michael Green foi mais arrojado ao introduzir o uso da banda desenhada no ensino da disciplina de bioética, do 4º ano do curso de medicina. Uma iniciativa que tem sido reproduzida noutras instituições de ensino. A “nona arte” pode ser usada para melhorar as técnicas de observação, de interpretação e, até, de empatia. É que para ler uma banda desenhada, é preciso compreender para além do que está escrito, mas o que está latente. É preciso inferir o que acontece fora da vista e sem palavras.

Em relação à prática clínica, e no âmbito da educação para a saúde, a banda desenhada é um instrumento valioso pelo poder informativo. Algumas doenças conseguem ser melhor explicadas com recurso às imagens e às histórias, especialmente para utentes com dificuldades na compreensão e comunicação verbal. A comunicação visual é intuitiva e chega onde a comunicação verbal não alcança. Esta ferramenta parece facilitar e reforçar a relação terapêutica, fundamental para a adesão às intervenções recomendadas.

Seria desejável o (re)conhecimento das potencialidades da medicina gráfica, e respetiva integração na formação e na prática clínica dos profissionais de saúde. Para melhor avaliação sobre a mais-valia desta arte, sugiro uma visita ao site espanhol supracitado, que disponibiliza, gratuitamente, material didático sobre várias patologias.

Desde 2010 que se realiza a conferência Comics and Medicine, de periodicidade anual, que conta com a presença de mais de 200 participantes.