As capacidades musicais dos indivíduos com autismo

A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA) é uma patologia do neurodesenvolvimento cujos sintomas principais incluem as dificuldades no funcionamento social e na comunicação, associados à presença de comportamentos e interesses repetitivos. É frequentemente referido que muitos indivíduos com esta perturbação apresentam preferência e grande responsividade a estímulos musicais, aliadas a capacidades musicais superiores. Um caso mediático em Toronto, é Sahil Prashar, um adolescente com discurso limitado, mas que canta fluentemente em 3 línguas. A música, em especial o canto, são a forma de se comunicar com o mundo.

Curiosamente, Leo Kanner, o médico que, em 1943, designou pela primeira vez o termo “autismo infantil” referiu que 6 das 11 crianças (da sua série de casos clínicos), manifestavam uma “memória musical extraordinária”. Mencionou, como exemplo, o seu caso número 9, uma criança com apreciação musical peculiar, que aos 18 meses de idade já era capaz de distinguir 18 sinfonias e identificar os respetivos compositores. Apesar destas referências às capacidades musicais das crianças autistas, só em 1979, trinta e seis anos depois, é que os investigadores decidiram explorar e compreender estas habilidades. Assim, estudos experimentais têm demonstrado que a perceção musical está preservada ou aumentada em muitos indivíduos com PEA. Estes exibem capacidades superiores de identificação e descriminação de tons ou frequências musicais, em relação a indivíduos com desenvolvimento normal. A incidência de ouvido absoluto (capacidade de identificar ou de reproduzir tons musicais isoladamente, sem qualquer uso de referências) nos autistas é de 1 em 20, enquanto a prevalência na população geral é de 1 em 10.000 indivíduos. Mais impressionante, muitos destes indivíduos (com défices no reconhecimento e expressão emocional) evidenciam perceção apropriada das emoções (alegria, tristeza) evocadas pela música.

Com o crescente progresso das técnicas de neuroimagem, os neurocientistas têm tentado desvendar os mecanismos cerebrais subjacentes ao talento e ao processamento musical nesta população clínica, assim como, contribuir para o desenvolvimento de tratamentos inovadores. A aparente musicalidade dos autistas facilita a adesão e o envolvimento nas diferentes intervenções musicais (música-medicina e musicoterapia).

Gottfield Schlaug, neurologista na Harvard Medical School, e a sua equipa estudam a eficácia da reabilitação neurológica baseada em música. Criaram terapias de entoação melódica, e de mapeamento auditivo-motor (canto, atividade motora e imitação) para crianças minimamente verbais, de forma a facilitar a aquisição de linguagem. Os resultados preliminares revelaram melhorias na articulação de palavras e frases, com evidência anatómica de neuroplasticidade: fortalecimento das fibras do fascículo arqueado a nível do cérebro.

Em relação à musicoterapia na PEA, esta intervenção encontra-se documentada na literatura desde 1969, e o National Autism Center (Estados Unidos) classificou-a como uma prática emergente, em 2009. Contudo, as duas revisões sistemáticas sobre a eficácia da musicoterapia em indivíduos com autismo, realizadas pela Cochrane (2007 e 2014), concluíram que, apesar dos efeitos parecerem promissores, principalmente ao nível da: comunicação (verbal e não-verbal); atenção conjunta; interação social e reciprocidade socio-emocional; a evidência científica é ainda limitada. Esta conclusão derivou da fragilidade metodológica dos estudos incluídos (amostras pequenas). Situação que poderá ser clarificada com a realização de mais estudos de investigação, de boa qualidade metodológica.