(In)segurança nas Levadas: o custo da irresponsabilidade política

Esta semana fomos acometidos com novos casos de acidentes nas levadas e percursos pedonais da Região. Na mesma semana em que somos abalroados com a notícia de que Madeira está a perder quotas preocupantes dos dois principais mercados emissores de turistas na Região. E se, por um lado, não podemos fazer uma ligação única, direta e indissociável entre estas duas notícias, por outro, estas incitam, no mínimo, a uma reflexão.

É conhecido que o turismo de natureza da Madeira é um setor dinâmico que, segundo dados oficiais, é responsável pela captação de 1,3 milhões de turistas, e que influencia (e muito) o principal motor e alavanca da economia regional, que representa cerca de 15% do emprego regional e com um contributo estimado para o PIB da Região que ronda os 25%. Um turismo baseado numa oferta e atributos únicos (os trilhos emblemáticos da Madeira) que tem distinguido o turismo na RAM dos seus concorrentes mais diretos: Açores, Canárias, Baleares, Malta, Grécia e Croácia.

Mas é também ele um sector que se encontra profundamente manchado pelos sinistros que, todos os anos, preenchem as páginas de jornais com relatos de acidentes e mortes nos nossos percursos naturais.

Segundo dados oficiais do serviço regional da proteção civil, o número de acidentes em levadas e percursos pedestres da região em 2017 aumentou em quase 60%, em relação a 2016.

E há menos de um mês tive a oportunidade, em sede parlamentar, de expor este caso ao Sr. Presidente do Governo Regional, o qual referiu que o número de vítimas era “um índice residual”. Declarações profundamente lamentáveis quando os números oficiais também indicam que nos últimos anos, mais de duas dezenas de pessoas perderam a vida nas levadas ou nos percursos pedestres da Região, na maioria vítimas de acidentes durante as caminhadas.

E é verdade que muitos acidentes eram evitáveis por resultarem do descuido e incúria dos próprios visitantes.

Não raras vezes, cruzamo-nos com turistas de “havaianas” quando caminham por percursos escorregadios, com turistas que se desviam dos trilhos para captar aquela foto perfeita (mais perfeita do que a dos outros), ou simplesmente que decidem se aventurar em percursos menos concorridos, não recomendados, sem saberem quais as suas reais condições de segurança. E isto é um facto.

Mas o que dizer dos percursos recomendados pelo Governo Regional?

Infelizmente, basta percorrer alguns dos nossos trilhos mais conhecidos para nos depararmos com percursos maravilhosos, mas que na prática não são mantidos há anos. Com varandins de segurança completamente destruídos em zonas de arribas e penhascos. Com cabos partidos, outros soltos, e suportes arrancados do chão que negligenciam completamente a proteção dos caminhantes. Placas informativas completamente destruídas pelo tempo (muitas delas integralmente ilegíveis) e que não são revistas, atualizadas e mantidas há anos, o que omite por completo informações indispensáveis, como o tempo de percurso ou o seu grau de dificuldade.

Há a necessidade premente de uma visão política séria e responsável, que garanta medidas eficientes de manutenção e segurança dos atuais percursos pedonais recomendados, trabalhando, concomitantemente, na ampliação da atual rede de percursos recomendados, aumentando a oferta com tantos outros percursos que têm um grande potencial e que necessitam de poucas requalificações para integrarem este conjunto e permitindo, inclusive, a diminuição da capacidade de carga de alguns locais que, atualmente, são mais visitados.

É necessário reconhecer a importância económica e ambiental dos nossos percursos porque cada vez mais os nossos visitantes fazem uma análise mais criteriosa na escolha do seu destino e procuram um destino de natureza, diferenciado e genuíno, mas acima de tudo seguro. Porque destinos turísticos estão inteiramente interligados com a segurança, e é óbvio que quanto menor for o caso de incidência de risco no local, maior será a sua frequência por parte de turistas.

A definição destes modelos de desenvolvimento turístico depende em grande parte das características e potencialidades do território, mas também depende, e muito, das políticas de gestão implementadas. E neste sentido, é preciso saber evoluir com responsabilidade, e é preciso fazê-lo, sem ameaçar de morte a nossa “galinha dos ovos de ouro”.