De acordo com as últimas indicações, há 320 pessoas que, tecnicamente, estão em situação de alta problemática no Serviço Regional de Saúde. Ou seja, são doentes que já podem regressar a casa, mas continuam internados porque não têm mais para onde ir ou ninguém os vai buscar.
São pessoas como nós. Como todas as outras pessoas. Só que são doentes e moram no hospital.
Esta circunstância, quando vista assim, causa algum desconforto na consciência das pessoas. Mas é coisa passageira. Vem outra notícia, outro entretenimento, outra polémica e ficam os doentes e velhos esquecidos na enfermaria.
Por várias razões, a Madeira conhece bem essa nova prática social. Numa terra catita, soalheira e bilhardeira como a nossa, é quase comum haver um morador da enfermaria número tal, que faz cruzamento com uma unidade de nome novo, mas que acolhe velhos. Acolhe, não. Recolhe velhos.
Ficam para ali a tirar medidas às paredes, a roubar tempo ao tempo, a mirar as pontas dos dedos enquanto desfilam credos.
Vivem ali, naqueles quartos coletivos e ao mesmo tempo tão impessoais. Tão iguais, mas feitos para receber desiguais.
Não estão ali porque querem, nem pediram. Estão ali porque a doença os empurrou para um corredor, uma maca, uma enfermaria. E ali ficaram.
Condenar as famílias, que não os levam para casa, é a sentença mais fácil. E tantas vezes a mais cruel, mesmo sabendo que alguns agregados tinham o dever de estar mais próximo e ajudar a cuidar dos seus.
Mais do que a indisponibilidade de uma sociedade que tem de fazer pela vida, é imperioso contar com obstáculos naturais que impedem familiares de levar o doente para casa. Há escadas por todo o lado, há becos, há barreiras que dificultam movimentos dentro das próprias habitações.
Perante esses e outros impedimentos, salta à vista a necessidade de uma maior resposta social. Nem é já um problema de saúde, por muito que se confundam as áreas. E é normal essa confusão, pois ninguém reclama da sobrelotação das enfermarias ou dos bons cuidados lá prestados.
A reclamação fica à porta, no primeiro patamar de encontro entre utentes e profissionais de saúde, ou seja, nas Urgências. É aí que reside o problema com maior impacto, porque não há espaço para acolher todos nos serviços da especialidade.
Mas a questão é mais vasta e vai bem para lá da saúde. É essencialmente uma carência que exige mais respostas sociais. Podem ser lares, ou outros modelos institucionais que acolham os doentes em alta clínica e libertem o hospital para os tratamentos e os internamentos realmente necessários.
O importante é que se encontrem alternativas que vão ao encontro das atuais exigências da sociedade que, genericamente, quer bem aos seus velhos e doentes, mas não tem como os acolher e cuidar devidamente em casa. E, como sabemos, a esmagadora maioria das famílias também não tem dinheiro para pagar uma fortuna nos lares.
É deste cruzamento de realidades que surge a urgência numa solução digna para casos urgentes, outros utentes e respetivas famílias.
A continuar assim, sobra a triste e perturbadora ideia de abandono social daquele bairro de mais de 300 pessoas.
A continuar assim, é o tempo que se lembra deles e eles do tempo. Só o tempo. Porque o sistema parece que já os esqueceu e inadvertidamente espera que libertem camas para dar a outros.
A continuar assim, é preciso lembrar que os cuidados de saúde e a dignidade da velhice não funcionam com as regras aceleradas do Alojamento Local.