Ativista pede "vigilância mais cerrada" de Portugal à mutilação genital feminina

Lusa

A presidente do comité para o Abandono das Práticas Nefastas da Guiné-Bissau pediu hoje, em Lisboa, uma "vigilância mais cerrada" das autoridades à mutilação genital feminina, que assegurou, continua a acontecer em Portugal.

"Sabe-se, não se consegue provar, mas as pessoas falam", disse Fatumata Djau Baldé à agência Lusa, apontando a mata das Mercês, na zona de Sintra, como um dos locais que lhe foi recentemente referenciado como sítio de prática de mutilação genital feminina.

A ativista acrescentou que “está a acontecer em Portugal e é preciso uma vigilância mais cerrada das autoridades e das organizações que estão a trabalhar a temática" no terreno.

A responsável guineense falava à agência Lusa, em Lisboa, à margem da apresentação do relatório do Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) sobre a situação da população mundial em 2020, que este ano se centrou na mutilação genital feminina (MGF), no casamento infantil e na seleção sexual que dá preferência aos filhos homens.

Fatumata Djau Baldé defendeu que, à semelhança do que já acontece na Guiné-Bissau, é preciso criar em Portugal redes de denúncia que possam ir "até ao nível dos bairros", considerando que só assim se conseguirá que os casos possam ser denunciados previamente e as mutilações evitadas.

"Na Guiné-Bissau, tivemos denuncias de que um grupo de crianças ia ser submetido a essas práticas, comunicamos à polícia e essas crianças foram salvas", disse.

Para Fatumata Djau Baldé, na Guiné-Bissau o "processo de combate" à MGF "está muito mais avançado do que em Portugal e em outros países europeus", onde continua a ser tabu abordar o tema com as comunidades de imigrantes.

"É muito difícil juntar as mulheres e os homens para falar deste tema. Por isso, pensamos que se poderia chegar mais facilmente aos homens do que às mulheres no combate a essas práticas", advogou.

Para esta responsável, se um homem decide que as suas filhas não serão submetidas a MGF, a maior parte das mulheres deixará de o fazer, embora admita que haverá sempre algumas que "sentirão que é sua obrigação" mutilar as crianças.

De acordo com o relatório do FNUAP, 45% das mulheres e raparigas da Guiné-Bissau sofreram MGF.