Organizações mobilizam-se para ajudar quem tem vergonha de pedir

As novas situações de pobreza e exclusão social geradas pela crise dos últimos anos mobilizaram a sociedade civil, que se tem empenhado em criar respostas diferentes da tradicional “sopa dos pobres”, para atender a quem tem vergonha de pedir.

Na Rua das Olarias, no bairro lisboeta da Mouraria, nasceu há quatro anos um projeto inovador pelas mãos da jornalista e fotógrafa Adriana Freire, a que deu o nome “Cozinha Popular da Mouraria”, onde “todos comem, todos cozinham”.

Adriana Freire começou por explicar à agência Lusa que “a intenção não é fazer caridade”, mas dar formação às pessoas para que possam voar sozinhas.

“A caridade é uma coisa que não resolve nada, é uma ajuda pontual. Aqui a ideia é dar outro tipo de ferramentas às pessoas. É dar-lhes formação e integrá-las numa equipa de trabalho”, explicou.

Contudo, “se alguém pontualmente precisa de ajuda e nos vem bater à porta está em família”, mas “a intenção deste projeto não é resolver a situação com uma sopinha”, reiterou.

À “Cozinha Popular da Mouraria” chegam muitas pessoas enviadas pelo tribunal para fazer trabalho comunitário.

“Muitas delas são aqui do bairro e acabam por ficar connosco, porque se sentem bem e gostam do projeto. Se nós pudéssemos empregávamos o bairro todo”, disse, com um sorriso.

O projeto começou pela cozinha e aos poucos foi conquistando terreno e os moradores do bairro: “Neste momento, temos a cozinha, o quiosque do jardim da Cerca da Graça e a Câmara também nos vai atribuir um espaço em que estamos a pensar criar uma escola”, contou Adriana Freire.

E porque “se estraga muita fruta em Lisboa”, Adriana Freire criou o projeto “Muita Fruta”, que aproveita os frutos dos quintais para distribuir e fazer compotas.

“Se conseguirmos produzir várias coisas podemos comercializá-las” e até criar uma “pequena fábrica artesanal”, disse, comentando que “era uma forma do projeto integrar mais gente”.

Na cozinha, acontecem “situações inacreditáveis, inesperadas e improváveis de pessoas de vários países e de religiões que se misturam e têm o maior prazer em partilhar e mostrar o que se come no seu país”, contou a fotógrafa.

No fundo, “é uma extensão da casa das pessoas” do bairro e um “ponto de união de todas as culturas”.

No mesmo bairro, a cafetaria da Associação Renovar a Mouraria aderiu à iniciativa “Café Suspenso", em que alguém pode deixar pago um café, um galão, uma sopa ou uma sandes para ajudar pessoas carenciadas.

O conceito do "café suspenso" surgiu no sul de Itália, na cidade de Nápoles, quando muitas pessoas ficaram na miséria, e tem vindo a ser replicado em Portugal por Mário Barros e dois amigos, tendo já chegado a vários cafés de Lisboa e de Aveiro

Outro projeto de luta contra a fome nasceu há quase seis anos em Lisboa e desde então não parou de crescer. Chama-se Re-food e foi criado pelo norte-americano Hunter Halder para combater o desperdício alimentar e ajudar quem precisa.

Hoje apoia mais de 2.500 pessoas, com a ajuda de 4.000 voluntários, e distribui cerca de 46 mil refeições por mês, que recolhe junto de mais de 900 restaurantes, cafés pastelarias, padarias, refeitórios e supermercados de todo o país.

Mas as iniciativas não param de surgir, uma delas é o projeto de integração de refugiados da Associação Pão a Pão, que consiste num restaurante que vai ser gerido por mulheres e jovens refugiados sírios, que através da comida manterão a relação com a sua cultura.

O investigador José Lúcio, do Centro de Estudos de Geografia e Planeamento Regional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, destacou à Lusa a importância destas respostas para atender às situações de pobreza envergonhada.

“Hoje temos uma dinâmica muito forte das redes das organizações não-governamentais, que fazem muito trabalho”, para ajudar “quem está a precisar de apoio”, mas não quer estar “sujeito ao julgamento social”.

Em 2015, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística, quase dois milhões de portugueses (19,5%) estavam em risco de pobreza.