Era digital ainda não eliminou preconceito sobre ensino à distância

Lusa

O preconceito face ao ensino à distância ainda existe, mas nos empregadores e não nos alunos, garante o reitor da Universidade Aberta (UAb) - criada para o efeito há 30 anos - que lamenta a falta de reconhecimento também na lei.

“O que mudou em 30 anos? Muito, tudo”, garante Paulo Dias, numa referência à evolução tecnológica que revolucionou todas as áreas de conhecimento, incluindo a educação.

Recordando que há 30 anos a educação à distância se fazia ao sábado de manhã, em programas gravados transmitidos no segundo canal da RTP, num “modelo baseado na autoaprendizagem, independente”, Paulo Dias diz que “a mudança tecnológica foi brutal” e que “o que temos hoje é uma educação digital”.

“Os conceitos de educação, felizmente, também mudaram bastante. Entendemos a educação hoje como um processo colaborativo e social, e a educação à distância é um processo conversacional, baseado no diálogo, na colaboração, no trabalho entre pares. Isto conduziu a uma mudança muito forte na perceção que a sociedade tem da educação à distância”, disse.

Uma mudança muito forte, mas não total. O preconceito em relação ao ensino à distância ainda existe, sobretudo na cabeça dos empregadores, que tendem a olhar para estas formações como menos credíveis do que as obtidas no ensino presencial, uma ideia que os cerca de 10 mil estudantes da UAb não partilham, preferindo valorizar a flexibilidade, sobretudo de horários, que este tipo de ensino proporciona.

“Um aluno da UAb pode ir no metro, pegar no telemóvel e rapidamente consultar a sua sala de aula virtual e saber que tarefas tem para fazer”, exemplificou o reitor, referindo que este é um gesto que, no caso da Universidade Aberta, pode ser feito por alunos em Portugal continental e ilhas, mas também em outros 30 países espalhados pelo mundo, muitos de língua oficial portuguesa, mas também onde existem comunidades de lusodescendentes.

Mudaram também os objetivos dos alunos: se há 30 anos a UAb era procurada, maioritariamente, por pessoas em fim de carreira, hoje os alunos “estão longe da idade da reforma”, têm, a maior parte, entre os 35 e 45 anos e procuram obter uma formação para valorização profissional.

“O adulto tem um papel muito forte no desenvolvimento social e não pode ser abandonado. Mesmo quando está a trabalhar ele deve ter uma continuidade de formação, deve ser chamado para conhecer novas ideias, perceber novos cenários de ação. Isso é valorização social”, defendeu o reitor.

Em 30 anos de avanços, Paulo Dias lamenta que a lei não tenha acompanhado, definindo o enquadramento legal do ensino à distância como “muito frágil”.

“A lei [Regime Jurídicos das Instituições do Ensino Superior] não reconhece formalmente o ensino à distância, reconhece-o um pouco por paralelismo. A A3ES, a agência de acreditação do ensino superior, tem sempre um pouco este problema: reconhece a UAb, porque foi a instituição criada para isso, mas depois não há uma lei que enquadre o ensino à distância. A minha visão estratégica é a de que não é preciso uma lei para isto, porque as instituições no futuro vão ter o ensino presencial e o ensino à distância, mas a lei atual deve é referir as duas situações”, disse o reitor.

No entanto, há questões práticas e constrangimentos criados pela lei que a instituição espera que a tutela resolva rapidamente, nomeadamente no que diz respeito às vagas.

A preparar-se para lançar uma licenciatura na área da gestão autárquica no modelo de ensino à distância em conjunto com a Universidade de Coimbra, com a qual tem um consórcio, a UAb mostra-se preocupada por a lei não dar resposta ao modelo de fixação de vagas, que no ensino presencial tem um limite, e no ensino à distância não, por não existirem limitações de espaço.

O novo curso, que terá ainda que passar a avaliação da A3ES, poderá, no limite, arrancar no próximo ano letivo, se a agência “tiver disponibilidade para proceder à acreditação fora do prazo normal”, que geralmente leva um ano, mas provavelmente só terá início em 2019-2020.

Também em preparação com a Universidade de Coimbra estão cursos de ensino de português como língua não materna, “algo muito importante, porque permite chegar a outras populações e divulgar a língua”, um património cultural com milhões de falantes, e em crescimento, que o reitor quer potenciar como língua de conhecimento.

Com esse objetivo, e integrado no programa que se estende ao longo deste ano para assinalar os 30 anos da UAb, a instituição vai propor a criação de uma associação de língua portuguesa para a educação à distância, em articulação com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), mas fora dela.

Sem dúvidas de que a educação à distância “é o futuro”, e que a UAb se tem pautado por ser um laboratório na investigação deste tipo de ensino e um exemplo para outras instituições, Paulo Dias adiantou que será a olhar para o passado que se dará o arranque da celebração dos 30 anos da universidade, com uma exposição do repositório da universidade, com aulas gravadas e conteúdos digitais.

Hoje dá-se início ao programa das celebrações, com o lançamento do programa e uma cerimónia de entrega de diplomas a 35 alunos de excelência da instituição, com notas de 18 valores ou superiores, “na sua grande maioria residentes em Portugal (29), mas também na Alemanha, Brasil, Estados Unidos da América, Macau, Moçambique e Reino Unido”.

Ao longo do ano haverá um ciclo de grandes conferências – duas até julho e uma em setembro – dedicada a temas como o conhecimento para a cidadania na sociedade digital, a atribuição de doutoramentos ‘honoris causa’ a personalidades com um papel relevante na divulgação do português como língua de conhecimento e em novembro um congresso sobre educação à distância.