Covid-19: Desvalorizar o que sentem os profissionais da linha da frente contagia tal como o vírus

Lusa

O Hospital de S. João criou um apoio psicológico para profissionais de saúde, não para “preparar soldados” para a “guerra” covid-19 mas porque “desvalorizar” o que sente quem está na linha da frente pode ser tão contagioso quanto o coronavírus.

A ideia é transmitida à agência Lusa por Eduardo Carqueja, diretor do serviço de psicologia do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), no Porto, no qual foi, recentemente, criada uma consulta de psicologia dirigida a profissionais de saúde.

“O que os estudos dizem é que o ‘burnout’ [ou Síndrome do Esgotamento Profissional] decorre da situação laboral na qual o trabalhador está inserido. Pode produzir resistências, desgaste, exaustão. Neste contexto de pandemia, existem outros aspetos a ser considerados: o medo de ser contagiado ou de contagiar, a ansiedade do regresso ao serviço de origem (…). Há um stress pós-traumático que não pode ser desvalorizado, quer pelo próprio quer pelos seus pares”, descreve Eduardo Carqueja.

O CHUSJ acolheu o seu primeiro caso covid-19 no dia 02 de março. No dia 13 desse mês, Eduardo Carqueja anunciava a criação de uma linha de acompanhamento para doentes e familiares, numa conversa com a imprensa na qual garantiu a disponibilidade do seu serviço para acompanhar profissionais de saúde que necessitassem de intervenção psicológica.

“Há uma matriz muito cultural que é ‘se eu precisar eu vou’ e a realidade é que durante o pico pandémico recorreram [ao serviço] poucos [profissionais]. Agora, quando parece abrir-se uma janela de maior tranquilidade, temos recebido cerca de cinco pedidos por semana”, conta o especialista.

Viviana Gonçalves, enfermeira que durante dois meses lidou de perto com casos covid-19 e não vê a mãe há meio ano por esta ser doente de risco, bem como Isabel Macedo, assistente operacional que esteve fechada em casa 69 dias depois de ter sido infetada em contexto hospitalar e festejou o Dia da Mãe por videoconferência, fazem parte desse número.

“Se volto para lá? É isso que me está a perguntar? Volto. No meu serviço é que não estou bem”, responde à Lusa Viviana, que há cinco anos está no serviço de cirurgia cardiotorácica e foi voluntária no serviço de medicina intensiva de 01 de abril a 30 de maio.

Recorreu à consulta do serviço de psicologia do CHUSJ pela necessidade de “acomodar” as vivências que teve na chamada linha da frente de uma pandemia que já provocou pelo menos mais de 673 mil mortos, incluindo 1.735 em Portugal.

“O facto de estarmos expostos àquilo – ao calor, à desidratação, ao peso do equipamento, à exigência das decisões rápidas – faz-nos pensar de forma diferente. Respeitávamos o vírus. Costumo comparar estes dois meses a uma paragem cardíaca. No meu serviço, quando temos um doente em paragem, temos a adrenalina ao máximo e fazemos tudo para o salvar. Quando o doente fica estável, dá-se a baixa de adrenalina e aí raciocinamos. Estes dois meses foram uma enorme paragem cardíaca. Vi o reanimar do mesmo doente, ou seja, do vírus, durante dois meses”, descreve.

Viviana esteve na medicina intensiva até um sábado. Tinha de regressar à cirurgia cardiotorácica na segunda-feira seguinte. Não se sentiu, diz, “capaz”: “Estava em negação. Recorri à consulta para começar a perceber o que se passava. Tem ajudado, mas preciso de me adaptar. Nunca será igual. Há coisas que eu vi e que colegas não viram, portanto encaramos as coisas de forma diferente”, aponta.

Eduardo Carqueja reconhece esta descrição como um discurso de quem não se sente compreendido ou acolhido no regresso ao serviço de origem, explicando que “muitas vezes, e contrariamente ao que se possa imaginar à partida, é no regresso ao local de trabalho prévio que decorrem as situações de ‘burnout’ e não no desempenho da chamada missão”.

“Porque vivenciaram situações limite (…) os profissionais regressam aos serviços de origem com uma visão diferente. Se foram voluntários muitas vezes ouvem ‘tu estás a queixar-te de quê? Tu foste porque quiseste’. Uma coisa é a guerra e o coitadinho que lá esteve obrigado e não quer voltar porque aquilo é violento. Outra é o ir voluntariamente e no regresso, ao acomodar as vivências emocionais, físicas e de desgaste, não ser compreendido enquanto elabora as histórias e as narrativas que lhe permitem continuar a vida normal. Muitos profissionais de saúde, e até ligados à área da saúde mental, não têm esta noção e desvalorizam o que sente o voluntário”, explica o psicólogo.

Eduardo Carqueja lidera um serviço que conta com 25 psicólogos aos quais foi dada uma formação sobre avaliação de riscos psicossociais em contexto profissional. Dez desses especialistas ficaram alocados à consulta dirigida a profissionais. Trabalham dimensões como a ansiedade, a depressão, o luto e o medo, entre outras.

Isabel Macedo teve medo de regressar ao serviço de infeciosas, ao qual voltou após dois dias de internamento, 11 testes de despistagem ao novo coronavírus e 69 dias de isolamento domiciliário. O marido preparava-lhe as refeições e os filhos, de 20, 18 e 12 anos, foram para a aldeia ao cuidado de familiares. Do lado de dentro das quatro paredes foi, diz, “disfarçando a tristeza” conforme podia.

“Estava sozinha, ninguém via se estava bem ou não. Tentava passar imagem de que estava tudo bem para o lado de lá da porta. E agora regressei porque tinha vontade de voltar à vida normal, mas há dias que não estou tão bem. Tenho medo, mas não posso deixar que o medo se apodere de mim. Tento que o doente não perceba e tento dar o melhor de mim, o melhor que posso e que sei”, conta a assistente operacional, à Lusa.

Também não contou “a quase ninguém” que estava infetada por “medo de represálias perante a família”. “Há falta de informação, mas a falta de formação das pessoas é pior. Tenho medo pelos meus filhos”, refere.

Este é outro tipo de discurso que o diretor do serviço de psicologia do CHUSJ conhece bem. Eduardo Carqueja alerta para o “estigma” perante quem foi infetado que pode ser “mais contagioso do que o próprio vírus”.

Outro dos aspetos que o psicólogo identifica nos discursos de muitos profissionais de saúde, e para o qual se confessa “impotente”, está ligado à causa económica ou à falta de reconhecimento perante quem cuida. Cada uma à sua maneira, Viviana e Isabel, explicam à Lusa porque é que agradecem as palmas, mas dispensam as pancadinhas nas costas.

“Nesse mês [referindo-se a junho], só porque coincidiu com o subsídio de férias, recebi. Mas não recebi ordenado. Foi-me passada baixa por ‘doença natural’, quando o correto era existir uma baixa por ‘isolamento profilático’ e ser paga a 100% porque se é doença natural, então podia sair e eu estive em isolamento”, desabafa Isabel Macedo, assistente operacional da linha da frente da covid-19 cujo ordenado base são 635 euros.

Já Viviana Gonçalves, devido aos 15 dias de baixa que meteu entre maio e junho, no período de regresso ao serviço de origem após 60 dias na tal linha da frente, vai receber 650 euros de um salário base 1.205 euros.

“Isto foge à nossa área, mas é sem dúvida um problema. A causa económica tem reflexos porque marca mais a vivência que as pessoas têm e a doença que sofreram (…). Tem de existir uma estratégia nacional e transversal para esta situação. As instituições responsáveis pela definição de um plano estratégico têm de estar concertadas. Têm de dar resposta ao atual e preparar o que possa vir”, defende, por fim, Eduardo Carqueja.

O novo coronavírus foi detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

Depois de a Europa ter sucedido à China como centro da pandemia em fevereiro, o continente americano é agora o que tem mais casos confirmados e mais mortes.