A fundação da Livraria Lello já investiu mais de três milhões de euros na edição inaugural do festival literário Babell, que arranca no Porto na terça-feira, dia de São João, com vários autores distinguidos com o Nobel da Literatura.
“O que vai acontecer no Babell é, sobretudo, pôr o livro e a leitura no centro da vida pública. É isso que nos move desde há muitos meses, mais de um ano, quando começámos a idealizar e a dar corpo ao Babell”, diz à Lusa o comissário do evento, o editor e escritor Rui Couceiro.
Questionado pela Lusa sobre o orçamento do certame, explica que o valor investido pela Lello “já ultrapassou os três milhões de euros”, sem contar com a coprodução da Câmara do Porto.
Couceiro liga o evento aos 30 anos da distinção do Centro Histórico do Porto como Património Mundial pela UNESCO, e espera ver “milhares de pessoas nas ruas de livros na mão”, depois de os bilhetes serem, no fundo, a compra de livros nas livrarias associadas, durante os últimos meses.
Além da “qualidade do cartaz”, destaca, é “a mobilização da cidade e de todo o tecido cultural” que distingue o Babell, ao levar as pessoas às livrarias e ajudar “à criação ou fortalecimento de públicos culturais”, também no ano em que se assinalam 25 anos de Porto - Capital Europeia da Cultura.
A polaca Olga Tokarczuk, Nobel da Literatura em 2018, estará à conversa no sábado, dia 27, com Marta Bernardes, numa sessão agendada para as 18:00 na Praça Gomes Teixeira, junto à reitoria da Universidade do Porto, que acolherá grande parte das sessões.
Tokarczuk é autora de “Viagens”, “Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos”, “Histórias bizarras” e “Empúsio”, todos editados em Portugal pela Cavalo de Ferro, entre outros.
Nesse dia, pelas 20:15, o artista Cai Guo-Qiang assina um espetáculo artístico nos céus sob o rio Douro, visível da Ribeira e do Cais de Gaia.
“Está a criar uma enorme expectativa. Um espetáculo com mais de 600 drones e pirotecnia nos céus da cidade, ou num território híbrido, porque é por cima do Rio Douro”, elogia o comissário.
Entre os destaques da programação está o Nobel da Literatura 2025, László Krasznahorkai, o autor de “O Tango de Satanás” e “Herscht 07769”, natural da Hungria, numa sessão marcada para as 18:30 de domingo, dia 28 de junho, na Praça Gomes Teixeira.
O britânico Salman Rushdie sobe ao palco do Coliseu do Porto, pelas 21:30, num dia que inclui ainda uma conversa de Julian Barnes, premiado com um Booker em 2011 por “O Sentido do Fim”, e de quem a Quetzal publicou recentemente “Partida”, que anunciou como derradeiro romance.
Antes, pelas 16:00, a canadiana Margaret Atwood, autora de “Os Desapossados”, entre outras obras, estará nos ‘Leões’, por que também é conhecida a praça no centro do Porto, para uma sessão moderada por Tânia Ganho.
A lista de escritores premiados também inclui a brasileira Conceição Evaristo, cujo romance mais recente é “Canção para Ninar Menino Grande” (2022), o colombiano Héctor Abad Faciolince e o espanhol Javier Cercas, também o sul-coreano Byung-Chul Han, que estará em Matosinhos na inauguração do Jardim do Pensamento, junto ao Mosteiro de Leça do Balio, no dia 24.
A lusofonia fica representada, adianta a organização, por nomes como Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Ana Paula Tavares, Valter Hugo Mãe, Milton Hatoum, João de Melo, Dulce Maria Cardoso, Djaimilia Pereira de Almeida e Bruno Vieira Amaral, entre outros, sem esquecer Conceição Evaristo.
Todas as sessões, adianta o comissário, são livres de tema, para não causar “desperdício”, para circularem “livremente as ideias e opiniões” dos autores.
Os GNR vão juntar-se a Pedro Abrunhosa e a um artista surpresa para um concerto na Avenida dos Aliados, que incluirá uma canção nova, criada em conjunto, em atuação marcada para quinta-feira, dia 25, enquanto Bárbara Bandeira e Carminho atuam no dia seguinte.
Questionado sobre o peso da representatividade e equilíbrio de género na programação (os autores convidados, moradores, autores de exposições, curadores e moderadores são mais homens do que mulheres, segundo o ‘site’ do evento), assim como sobre a falta de autores trans, Rui Couceiro esclarece que “o único critério para um evento desta natureza é o da qualidade literária”.
“Convidámos os autores que nos pareceram os melhores dentro daqueles que estavam disponíveis, porque houve quem tivéssemos convidado e não estava disponível. É possível fazer este equilíbrio, mas o único critério que presidiu aos convites que fizemos foi o critério da qualidade literária e artística”, afirma.
Além das sessões com escritores e dos concertos, o evento coproduzido com a Câmara do Porto inclui ainda exposições, aulas, performances, conferências, colóquios, programação pensada para crianças e famílias e cinema.