Familiares de presos políticos decidiram hoje prolongar indefinidamente uma vigília que realizam desde 07 de junho em frente à embaixada dos EUA em Caracas, até que Washington interceda pela libertação dos detidos.
“Pedimos à embaixada que intervenha por nós, uma vez que estão em negociações com Delcy Rodríguez [Presidente venezuelana interina]. Que intercedam a favor das pessoas que estão privadas da liberdade, tanto venezuelanas como colombianas, espanholas, italianas e portuguesas, para que os seus casos sejam revistos e esta agonia termine”, disse à Lusa uma das participantes na vigília.
Yadira Sanchez disse que o irmão Henry Sánchez Mora está preso há mais de nove anos, sem julgamento. A mãe morreu em dezembro sem ver o filho sair em liberdade.
“Lutou contra um cancro durante quase três anos (...) e partiu deixando o filho na prisão”, disse, acrescentando ainda esperar que os EUA “ouçam as vozes” dos venezuelanos.
Yadira Sanchez sublinhou não saber porque razão os presos políticos ainda não foram libertados e “não se concretiza uma mudança no país”.
“Não sei como estão a trabalhar estes assuntos, mas, apresento os meus respeitos, porque sem eles [EUA] não teríamos chegado até aqui (...) porque há um ano não podíamos levantar a nossa voz, porque se o fizéssemos iríamos para a prisão”, disse.
A imprensa já faz entrevistas o que antes era impossível porque qualquer órgão de comunicação social que o fizesse era censurado, os jornalistas detidos e os equipamentos confiscados, afirmou.
“Mas não queremos apenas uma negociação, queremos a liberdade de todos os presos políticos e de toda a Venezuela, queremos uma mudança, eleições livres e justas, que o povo possa eleger o Presidente que queira, não alguém imposto, como fizeram o regime chavista, o madurista e agora o de Delcy Rodríguez”, disse.
Por outro lado, apelou às pessoas de todo o mundo, com presos políticos na Venezuela, para que se juntem à vigília e lutem também pelos compatriotas.
“Apelamos à comunidade de Portugal para que se dirija a este local, para marcar presença e levantar a voz em defesa das pessoas do seu país”, frisou.
Em declarações à Lusa, Francis Quiñones, mãe do sargento da Guarda Nacional Bolivariana (GNB, polícia militar) Jonathan Rafael Franco Quiñones, explicou que os venezuelanos sabem que depois da captura de Nicolás Maduro, em Caracas fazem o que o Governo dos Estados Unidos lhes ordena.
“Esperamos que os EUA sejam os nossos mediadores, que nos ajudem (...). Estamos aqui para dizer-lhes que não nos ignorem, que ainda há presos políticos na prisão e que estão a ser enganados com anúncios de liberdade”, disse.
Lembrou que o regime anunciou a libertação de 500 presos políticos e na Venezuela há pessoas que pensam erradamente que já todos foram libertados.
“Que nos ajudem a abrir definitivamente as grades para que os nossos familiares fiquem em liberdade”, pediu.
“Que os representantes das embaixadas, os compatriotas, venham até aqui (...) portugueses, italianos, chineses, colombianos. Todos os estrangeiros têm de se unir, de ser solidários e levantar a voz por eles”, disse.
Quiñones disse temer que lhe aconteça o mesmo que a Cármen Teresa Navas, de 82 anos, uma venezuelana que durante mais de 16 meses denunciou o desaparecimento do filho, Víctor Hugo Quero Navas. Em maio, Cármen morreu, uns dias depois de as autoridades confirmarem que o filho tinha falecido em julho de 2025, sob custódia do Estado.
“Tenho medo, dá-me palpitações (...) Às vezes, deito-me e peço a Deus que me permita viver o dia de amanhã para continuar a lutar pelo meu filho. Não quero morrer e deixá-lo sozinho. Não queremos que morram mais mulheres à espera dos filhos. Já são seis as mães que morreram desde o início do ano”, disse.
O filho, preso desde maio de 2020, e vários companheiros estiveram alegadamente envolvidos na operação antirregime Gedeón.
“A todos violam o devido processo legal (...) não permitem ter um advogado privado, as audiências não são públicas e são coagidos a confessar crimes (...) O meu filho, por ter admitido factos, sob coação, foi condenado a 24 anos e seis meses (...) sem ter feito mal a ninguém, sem matar ninguém”, disse.
E recordou que o falecido Hugo Chávez Frías foi presidente da Venezuela (1999-2013), depois de liderar um golpe de Estado, de ser detido e indultado.
“Não era necessária uma lei de amnistia para libertar pessoas, isso podia ser feito mediante um decreto”, frisou.