Os talibãs reprimiram hoje com tiros e bastões elétricos manifestantes em Herat, no oeste do Afeganistão, que protestavam contra a detenção de mulheres por violação do código de vestuário, denunciaram testemunhas e a imprensa afegã.
A invulgar mobilização juntou dezenas de pessoas na área de Jibrail, no noroeste da cidade, onde manifestantes, incluindo mulheres, marcharam ao grito de “Educação, Trabalho, Liberdade” para exigir a libertação das detidas.
Testemunhas disseram à agencia espanhola EFE que as forças de segurança do governo dos talibãs abriram fogo e reprimiram o protesto com paus e bastões elétricos.
Até ao momento dos contactos, não havia registo de vítimas mortais.
“Tínhamos uma mensagem clara: nem no Islão nem na cultura afegã existe qualquer justificação para deter e prender mulheres perante a ausência de um crime grave. No entanto, as forças de segurança abriram fogo”, disse à EFE Hedayatullah, um dos participantes.
O meio de comunicação local independente Amu TV afirmou que os talibãs dispararam contra os manifestantes, citando fontes locais e imagens que obteve.
Testemunhas afirmaram à Amu TV que havia vários feridos e que pelo menos duas pessoas tinham sido transportadas para um hospital.
De momento, não há conhecimento de que as autoridades talibãs se tenham pronunciado publicamente sobre o protesto.
Cerca de 30 mulheres foram detidas por não usarem o véu integral ou por usarem maquilhagem na sequência de uma campanha iniciada na sexta-feira em Herat pelo Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício.
“Saímos esta manhã de forma pacífica para transmitir uma mensagem aos talibãs e exigir a libertação das mulheres detidas há uns dias”, acrescentou Hedayatullah.
Citando o testemunho de um fotógrafo presente nos protestos, a ativista afegã Sara Wahedi disse nas redes sociais que a marcha começou cerca das 08:00 locais (04:30 em Lisboa).
As forças talibãs dispersaram a manifestação através de detenções e do uso da força, deixando as ruas vazias sob um forte dispositivo de segurança.
O relator especial da ONU para o Afeganistão, Richard Bennett, declarou-se “profundamente alarmado” pelo uso excessivo da força contra a marcha pacífica.
Bennett exigiu o fim da violência contra mulheres e raparigas, sem mencionar diretamente o regime.
Sob a lei de moralidade talibã, o rosto feminino é considerado ‘awrah’ (o que deve ser coberto), pelo que os agentes da polícia moral exigem a cobertura obrigatória das mulheres.
A mobilização em Herat quebra um longo período de silêncio nas ruas, onde os protestos se tornaram quase impossíveis devido à repressão violenta que se tem verificado desde o regresso dos talibãs ao poder em agosto de 2021.
O regime vetou de novo o acesso das mulheres à educação, ao emprego e à vida pública.
Em setembro de 2022, a morte de Mahsa Amini, 22 anos, depois de ter sido detida em Teerão por usar inadequadamente o véu islâmico, gerou uma onda de protestos no Afeganistão que foi reprimida com violência.
Os protestos duraram vários meses e resultaram na morte de centenas de pessoas, incluindo elementos das forças de segurança, e na detenção de cerca de 20 mil manifestantes.