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Filosófo defende que Europa não se preparou para guerra por considerar que era primitivo

JM-Madeira

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Data de publicação
29 Março 2023
18:30

O filósofo e académico francês Gilles Lipovetsky considerou em entrevista à Lusa que Europa ocidental não se preparou para a guerra por motivos ideológicos, mas a invasão da Ucrânia reviveu o velho adágio ‘se queres a paz prepara a guerra’.

"A Europa ocidental não se preparou para a guerra, pensava-se que era história, que era para os primitivos… Não é verdade, e com a guerra na ordem do dia, a lógica muda, como exemplifica o reinvestimento em armamento pela Alemanha… O velho adágio, ‘se queres a paz prepara a guerra’ permanece verdadeiro", indicou.

Numa referência à decisão do Presidente russo Vladimir Putin de ordenar a invasão da Ucrânia em 22 de fevereiro de 2022, considerou que o líder do Kremlin "apenas respeita a força", não se devendo aguardar uma "atitude de sabedoria" da sua parte.

"À exceção da CIA, ninguém acreditava, incluindo os ucranianos, que os russos iriam intervir", recorda o ensaísta, 78 anos, que se deslocou a Lisboa para duas conferências.

"Putin está convencido que existe uma conspiração da NATO... Não devemos psiquiatrizar abusivamente, mas na minha perspetiva, a guerra russa contra a Ucrânia não foi ditada pela razão, seja política ou económica, está fora desse âmbito. É outra lógica", acrescentou Gilles Lipovetsky, que hoje profere uma conferência em torno do seu último livro "Le Sacre de l’autenticité (2021)", (A Sagração da Autenticidade) a convite da universidade Católica.

"Não creio que [a invasão da Ucrânia] seja motivada por uma ofensiva ocidental, ou pela expansão da NATO. Isso seria legitimar a ação de Putin e conceder-lhe uma espécie de legitimidade geopolítica que na minha perspetiva não existe", sustentou.

"É antes uma nostalgia da grandeza russa, da recomposição do império russo, é uma lógica, mas que existe independentemente da ação do ocidente. O que fez Portugal ou a França contra a Rússia? Nada… Afinal, é Putin que está a americanizar a Europa".

Neste âmbito, o autor de "A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo", publicado em 1983, reafirmou que na Europa existe uma tendência que deverá ser contrariada.

"A de dizer que somos maus, que fizemos mal, que fomos os colonizadores, e que os muçulmanos são oprimidos… Não é a minha análise, e a doença da democracia não é da responsabilidade dos Estados Unidos, são fatores mais vastos, temos a nossa responsabilidade", apontou.

"Putin fomenta esta americanização, muito mais que uma tendência normal. Se fosse polaco estaria de acordo com isso, quem fornece as armas aos ucranianos são os norte-americanos, a Europa não as tem. Quem defende o mundo livre?", questionou.

A atribuição de responsabilidades aos EUA no contexto da atual crise mundial, também partilhadas por outros potências, volta a ser contestada pelo ensaísta.

"A doença democrática não são os Estados Unidos, é decerto o capitalismo com as suas responsabilidades, a forma como conduzimos as nossas políticas, e cometeram-se erros na nossa gestão. A melhor política é fazer uma autocrítica e não dizer sempre que a culpa é dos outros. Primeiro, a responsabilidade de si próprio", defendeu.

É uma responsabilidade que na sua perspetiva se estende de forma decisiva à questão ambiental.

"Se ultrapassarmos o 1,5º de aquecimento, que é provável, se os governos não tomarem medidas, isso vai significar inundações, catástrofes, o aumento do nível de mar, centenas de milhões de pessoas que vão partir", alertou.

"Assim, é necessário investir em energias renováveis porque o problema é o CO2, há demasiadas emissões e é a prioridade, porque cria o efeito de estufa, aumenta a temperatura. Cada décimo de aumento de temperatura significa tornados, tempestades, inundações, incêndios, como agora em Espanha no mês de março. É isso o futuro".

Perante um cenário pré-catastrófico, Gilles Lipovetsky nega uma relação entre o colapso ambiental e o modo de produção capitalista, baseado na economia de mercado livre, no lucro, e na contínua exploração dos recursos naturais.

"O Estado tem um papel, claro que o mercado existe, não há nada mais, acusa-se sempre o mercado, mas o que faz o Estado? O Estado tem as suas responsabilidades. Não digo que o mercado não tenha responsabilidades, mas o Estado tem a responsabilidade de regular. Pode tomar medidas, impor impostos…", esclareceu.

"Se o problema é do capitalismo, de acordo. Destrói-se o capitalismo, mas o que surge de seguida? Não há outro modelo. Vemos que as potências em ascensão, a Índia, a China, têm uma economia de mercado, que controlam. Houve talvez demasiada fé no milagre do mercado. O mercado é formidável, na condição que apenas se limite ao mercado".

Ao definir-se como um "liberal moderado", o filósofo sustém que um dos deveres de um liberal implica a necessidade de reequilibrar os poderes.

"O mercado é a melhor solução para a eficácia, mas existem consequências nefastas caso não exista uma ação voluntária do Estado. Penso que o século XXI vai assistir ao regresso do Estado, porque é necessário. E sobretudo é necessário dinheiro para favorecer os investimentos, dinheiro para o crescimento, para financiar o desenvolvimento duradouro. Se não existir um mercado dinâmico, a crise climática não será resolvida", argumentou.

Para além da necessidade de elites bem preparadas, como também ressalvou.

"Necessitamos de elites científicas, felizmente que existem, ao contrário do que dizem os populistas. Nas sociedades contemporâneas, a ideia de que tudo deve depender do consumidor responsável, que altera o seu modo de vida, é uma utopia. Não é verdade. São necessárias viaturas, aviões ‘limpos’, reduzir o consumo de carvão, alimentar as energia limpas, mas para isso é preciso muito dinheiro… A atual guerra não é o mercado, é política, concluiu.

Um tema que irá desenvolver no debate que decorre na próxima quinta-feira na embaixada de França (Débat du Palais de Santos) sob o lema "As nossas sociedades desafiadas pela fadiga democrática?", juntamente com Assunção Cristas, professora de Direito e antiga presidente do CDS-PP.

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