Uma aliança anti-Estados Unidos com países da Eurásia que não "tenham perdido juízo com mudança de sexo" ou "secar o pântano" de Moscovo para endurecer políticas são sugestões de comentadores de um dos programas de maior audiência na televisão russa.
Na última edição de "Noite com Vladimir Soloviov", programa diário transmitido pelo canal Rússia 1 e visto por milhões de russos, o destacado politólogo Dmitri Drobnitski elaborou sobre a necessidade de combater o uso do dólar da região euro-asiática, apontado como necessário reunir apoio de países que tenham políticas anti-LGBT como as russas.
"O grupo que detém o poder nos EUA está dividido, procura diferentes interesses e alimenta vários planos, nomeadamente, o que fazer com a Europa", disse Drobnitski.
Sendo assim, continuou, "um dos objectivos da Rússia devia ser o de expulsar o dólar da eurásia, com o fim de expulsar os norte-americanos. Para o efeito, porém, temos de ser mais duros, convidando a alinhar connosco todos os países de bom-senso, que ainda não tenha perdido o juízo com a mudança de sexo".
"Venham trabalhar connosco na desamericanização e desglobalização naquela região. Tragam as suas tecnologias, temos recursos para integrá-los na nossa economia", rematou.
"Era bom que alguém dissesse isso a [Vladimir] Putin!", Presidente russo, respondeu Vladimir Soloviov, o anfitrião das noites do canal Rússia 1, conhecido pelas suas duras posições pró-Kremlin.
Andrei Sidorov, decano da Faculdade de Política Mundial da Universidade Estatal de Moscovo, defendeu que os EUA "estão a aproveitar-se desta nova europa [de leste], que separa a europa velha [ocidental] e a Rússia, de forma a que estas nunca mais recriem os antigos laços".
Referindo-se ao blindado russo capturado na Ucrânia recentemente colocado por ativistas em frente da Embaixada da Rússia em Berlim, a propósito do primeiro ano da invasão russa do país-vizinho e entretanto enviado para ser exposto nos Países Baixos, Sidorov sugeriu que a ação na capital alemã "fracassou".
O decano entrou em despique com Soloviov ao sugerir que a política russa é menos activa do que deveria ser.
"[Donald] Trump [ex-presidente norte-americano] disse, em certa ocasião, que era necessário 'secar o pântano' em Washington. Pelos vistos, também temos o nosso pântano [em Moscovo], que impede que a política do país seja mais drástica", acusou.
Soloviov insistiu que o convidado "exemplificasse, apontasse nomes concretos", ao que Sidorov respondeu "por exemplo, no sector financeiro": "A política de formação de preços em rublos já devia ter sido concretizada há muito", disse.
"E não quer começar por secar a pântano mais próximo de si, o do ensino superior?", desafiou Soloviov.
"É o que estamos a fazer agora, erradicando um elemento limitador do ensino - o Processo de Bolonha. A Universidade de Moscovo sempre lutou contra aquele processso", respondeu o convidado.
Soloviov concluiu dizendo que a Rússia "tem de cultivar o seu jardim sem olhar para padrões alheios". "Esse tempo acabou", frisou.
A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro de 2022 pela Rússia na Ucrânia causou até agora a fuga de mais de 14 milhões de pessoas - 6,5 milhões de deslocados internos e mais de oito milhões para países europeus -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Neste momento, pelo menos 18 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento.
A invasão russa - justificada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, com a necessidade de "desnazificar" e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia - foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que tem respondido com envio de armamento para a Ucrânia e imposição à Rússia de sanções políticas e económicas.
A ONU apresentou como confirmados desde o início da guerra 8.101 civis mortos e 13.479 feridos, sublinhando que estes números estão muito aquém dos reais.
LUSA