Tunísia enfrenta risco de falência e de golpe de Estado

LUSA

A cinco dias da segunda volta das eleições legislativas, a Tunísia vive um “risco crescente de falência” e de um “novo ciclo de instabilidade”, com muitos observadores a admitirem um possível golpe de Estado, afirmou hoje um especialista.

A conclusão foi avançada hoje à agência Lusa pelo diretor do Programa para o Norte de África do International Crisis Group (ICG), Riccardo Fabiani, que destacou o facto de a Tunísia estar mergulhada numa “crise política e económica” que, até agora, o regime tornado autocrático do Presidente Kais Saied “não conseguiu resolver”.

“As eleições [primeira volta] que foram organizadas em [17 de] dezembro e a segunda volta na próxima semana [dia 29] foram e vão ser boicotadas pela esmagadora maioria dos eleitores, que neste momento não têm confiança no Presidente nem na oposição, que continua de ser hegemonizada pelos islamistas”, sustentou Fabiani.

“Há um risco crescente de que a Tunísia possa ir à falência e que haja um novo ciclo de instabilidade, enquanto muitos observadores falam na hipótese de um golpe de Estado nos próximos meses”, alertou o diretor do Programa para o Norte de África do ICG.

Para agravar a situação, prosseguiu Fabiani, o Fundo Monetário Internacional (FMI) “ainda não autorizou o empréstimo” que a Tunísia negociou em 2022, “porque não confia em Kais Saied e na atual conjuntura política no país”.

No fim de semana passado, milhares de manifestantes responderam ao apelo dos partidos da oposição para marcar o 12.º aniversário da revolta da Primavera Árabe e protestaram em várias cidades tunisinas contra a crise económica desencadeada pelo cada vez maior autoritarismo do Presidente Saied.

Para quarta e quinta-feira está convocada uma greve geral no setor dos transportes (rodoviários, aéreos e marítimos).

O movimento de protesto ocorre após as desastrosas eleições legislativas de 17 de dezembro de 2022, em que apenas 11% dos eleitores exerceu o direito de voto e cuja segunda volta, marcada para o próximo domingo e novamente boicotada pela oposição, visa concluir meramente o processo eleitoral para “remodelar uma legislatura” que o Presidente Kais Saied dissolveu em 2021.

As manifestações, lembrou a agência noticiosa Associated Press (AP), também ocorrem numa altura em que o país atravessa uma grave crise económica, com a inflação e o desemprego em alta, o que levou a que a Tunísia fosse o destino de uma ajuda alimentar da Líbia, iniciada a 17 deste mês, quando mais de 100 camiões carregados com açúcar, óleo, farinha e arroz chegaram a Tunes.

No total, o Governo de Tripoli prevê enviar 170 camiões com ajuda alimentar até ao final do mês para fazer face ao aumento dos preços dos alimentos e à escassez de combustível e produtos básicos, como açúcar, óleo vegetal e arroz.

No sábado passado, foi a Frente de Salvação Nacional (FSN), uma coligação de cinco partidos da oposição tunisina, que inclui a força islâmica Ennahdha, que convocou a marcha no centro de Tunes, em que os manifestantes gritaram palavras de ordem como “Kais Saied, deixa o poder” e “Não à ditadura, sim ao diálogo e à democracia”.

O presidente da Liga dos Direitos Humanos da Tunísia, Bassem Trifi, disse que as autoridades proibiram manifestantes de outras cidades do país de se deslocarem a Tunes para participar na marcha, mas foi o líder do Partido dos Trabalhadores tunisino, Hamma Hammami, que foi mais longe na avaliação da situação.

“Kais Saied acabará na prisão ou fugirá para o exterior. O seu regime ditatorial cairá, como o do ex-Presidente [Zine Abidine] Ben Ali", frisou Hammami.

A 14 de janeiro de 2011, o então presidente Ben Ali, que morreu em 2019, foi forçado a deixar o poder, transformando o país numa democracia emergente que inspirou a denominada Primavera Árabe, movimento de contestação popular que desencadeou mudanças históricas em vários países árabes.

"Estamos aqui para dizer 'stop' ao processo de destruição do Estado iniciado por Kais Saied. Devemos abrir novas perspetivas para o nosso país", disse Abassi Hammami, líder do Comité Nacional para a Proteção das Liberdades, que garantiu, tal como o líder do Partido Republicano, Içam Chebbi, que a oposição vai continuar a luta para relançar o processo democrático e ajudar o país a sair da crise política, económica e social.

Saied, eleito em 2019, restringiu a independência do sistema judicial e enfraqueceu os poderes do parlamento e dos partidos.

Num referendo realizado em julho de 2022, os eleitores tunisinos aprovaram, apesar da elevada abstenção, alterações constitucionais que concedem amplos poderes executivos a Saied, que liderou o projeto e que escreveu o próprio texto. Em setembro, aproveitando o poder do novo mandato, alterou a lei eleitoral para diminuir o papel dos partidos políticos.

Na sexta-feira passada, numa aparente resposta às críticas, Saied fez uma visita surpresa a uma das principais avenidas de Tunes, a Habib Bourguiba, e percorreu o bairro histórico da capital, a medina.

Na ocasião, pediu cautela contra “intrusos e renegados” que podem misturar-se com os manifestantes para provocar confrontos.

O aniversário do ‘14 de janeiro’ foi abolido como data oficial de comemoração por Saied, que, em vez disso, declarou 17 de dezembro como o “dia da revolução”.

A revolta da Tunísia começou a 17 de dezembro de 2010, quando um vendedor de fruta desesperado se imolou pelo fogo, desencadeando uma raiva reprimida e frustrada nos tunisinos, que organizaram os protestos que se espalharam por todo o país e, depois, a quase toda a região norte-africana e alguma do Médio Oriente.