Ucrânia: Alemanha considera "repugnante" que russos roubem cereais ucranianos

Paula Abreu

O ministro da Agricultura da Alemanha considerou hoje ser “repugnante” os roubos de cereais na Ucrânia, alegadamente por tropas russas, à margem de uma reunião do G7 que visa ajudar Kiev a exportar os seus produtos.

“A Rússia está a roubar e confiscar bens e cereais do leste da Ucrânia”, afirmou Cem Özdemir, ao lado do seu homólogo ucraniano, sublinhando que “esta é uma maneira particularmente repugnante de travar uma guerra”.

Os dois ministros “discutiram maneiras de ajudar a transportar as colheitas [deste ano], seja por terra, comboio ou via Danúbio”, adiantou Özdemir, explicando que a invasão russa e o bloqueio imposto aos portos ucranianos reduziram drasticamente as rotas de exportação deste grande produtor agrícola.

A Comissão Europeia apresentou na quinta-feira um plano para ajudar a Ucrânia a exportar a sua produção, questão que também estará no centro das discussões da reunião dos ministros da Agricultura do G7, que reúne as sete potências mais industrializadas (Alemanha, França, Itália, Canadá, Estados Unidos, Japão e Reino Unido).

“A situação na Ucrânia é muito complicada no que diz respeito às exportações de cereais”, admitiu o ministro da Política Agrária e Alimentação da Ucrânia, Mykola Solsky, referindo que 20 milhões de toneladas têm de sair dos silos do país até daqui a três meses, antes da próxima safra.

“Não podemos resolver esta questão sozinhos” e “devemos trabalhar para desbloquear os portos do Mar Negro e estabelecer ligações logísticas aos portos do Báltico”, acrescentou.

Reconhecida pelos seus solos negros muito férteis, a Ucrânia era, antes da invasão, o quarto maior exportador mundial de milho e estava prestes a tornar-se o terceiro maior exportador de trigo.

A guerra na Ucrânia está a afetar, entre outras coisas, a oferta global de cereais e preços cobrados, que, em relação às importações da Alemanha, aumentaram 53,6% em março em relação ao ano passado.

De acordo com dados hoje divulgados pelo Departamento Federal de Estatística (Destatis), a última vez que se registou uma taxa de variação tão alta foi em maio de 2011, quando a Alemanha passou a pagar mais 74% pelos cereais importados.

Os preços dos cereais importados pela Alemanha já estavam a aumentar consideravelmente desde janeiro do ano passado, não só devido à subida da procura e a descida da oferta, causada por más condições climáticas em importantes países produtores, como os Estados Unidos, o Canadá, a Austrália ou na América do Sul, mas também pelo crescimento dos preços dos fertilizantes e custos com transportes e energia.

A guerra na Ucrânia só intensificou esta situação.

A Ucrânia e a Rússia são os principais exportadores mundiais de cereais, mas, no caso da Alemanha, desempenham apenas um papel secundário neste setor, com uma participação de 1,9% e 0,1%, respetivamente.