Tunísia palco de manifestações contra Presidente no aniversário da queda da ditadura

Lusa

Centenas de pessoas enfrentaram hoje em Tunes uma forte presença policial e contrariaram a proibição de manifestações contra o Presidente tunisino, Kais Saied, por ocasião do 11.º aniversário da queda do regime de Zine el-Abidine Ben Ali.

“Abaixo o golpe, o povo quer o fim do golpe”, gritaram os manifestantes que percorreram a avenida Mohamed V, no centro de Tunes, contrariando a proibição de manifestações devido às restrições impostas pelo Governo no quadro da pandemia de covid-19.

Segundo jornalistas da agência noticiosa France-Presse (AFP), o número de manifestantes aumentou gradualmente para cerca de mil, antes de se dispersarem em vários grupos.

A polícia montou um forte dispositivo de segurança, com barreiras metálicas, camiões militares e unidades antimotim, na tentativa de impedir que os manifestantes acedessem à principal artéria da capital, a Avenida Habib Bourguiba.

Os manifestantes que conseguiram romper um cordão policial foram depois dispersos pela polícia, que usou granadas de gás lacrimogéneo e jatos de água suja.

As forças de segurança prenderam vários manifestantes durante cenas de rara violência no centro de Tunes, que já não se verificavam desde a queda de Ben Ali, a 14 de janeiro de 2011, em plena 'Primavera Árabe'.

Cerca de meia centena de manifestantes conseguiram aproximar-se dos edifícios onde está instalado o Ministério do Interior, numa rua adjacente à Avenida Habib Bourguiba.

“Você trabalha para [o Presidente egípcio, Abdel Fattah] al-Sisi e os Emirados Árabes Unidos", disse uma mulher a um agente da polícia.

Al-Sisi e os Emirados são acusados pelos detratores de Saied de terem apoiado o golpe de 25 de julho de 2021, quando o novo Presidente tunisino assumiu plenos poderes no país.

Nesse dia, após declarar o estado de exceção a 25 de julho, que incluiu também a exoneração do primeiro-ministro Hichem Mechichi, o Presidente tunisino suspendeu a quase totalidade da Constituição de 2014 e muniu-se de plenos poderes para “recuperar a paz social”. O Parlamento foi também suspenso.

Saied e outros responsáveis políticos tunisinos alegam que as medidas constituem uma “retificação” à revolução de 2011, que pôs termo a mais de duas décadas do regime ditatorial de Ben Ali. A oposição, por seu lado, considera a decisão de Saied um “golpe de Estado”.

Apesar da proibição decretada pelas autoridades devido ao forte ressurgimento da epidemia de covid-19, vários partidos políticos, incluindo a formação de inspiração islâmica Ennahdha, anunciaram a continuação, hoje, de ações de protesto contra o “golpe de Estado” de Saied, que acabou também com o feriado para a celebração do dia em que o regime de Ben Ali terminou formalmente.

“A revolução foi apagada do calendário pelo ‘diktat’ de um ditador. Não podemos reescrever a História como queremos. Estamos aqui para defender as instituições da República”, afirmou à AFP a ativista de direitos humanos Sihem Bensedrine, denunciando também a proibição de aglomerações como “uma tática policial e de segurança para roubar aos tunisinos o direito de protestar”.

“Foi uma liberdade duramente adquirida. O povo que derrubou uma ditadura que durou 23 anos não vai deixar que seja restabelecida uma ditadura”, acrescentou.

Os novos protestos contra o Presidente tunisino surgem numa altura em que as tensões entre o Ennahdha, que detinha a maioria no Parlamento, e Saied, já em si elevadas desde 25 de julho, se intensificaram após a prisão, a 31 de dezembro, de um dos “homens fortes” do partido de inspiração islâmica, o ex-ministro Noureddine Bhiri.

A revolução tunisina, que deu início às revoltas da 'Primavera Árabe' que abalaram vários países do Oriente Médio, começou a 17 de dezembro de 2010, dia em que um vendedor ambulante que se disse oprimido pela pobreza e humilhações da polícia, Mohamed Bouazizi, se imolou pelo fogo.