Afeganistão: EUA e Reino Unido acusam talibãs de massacre de dezenas de civis

Lusa

As embaixadas norte-americana e britânica em Cabul acusaram hoje os talibãs de terem “massacrado dezenas de civis” como retaliação no distrito de Spin Boldak, no sul do Afeganistão, que conquistaram a 14 de julho passado.

“Essas mortes constituem provavelmente crimes de guerra e devem ser investigadas e os combatentes ou líderes talibãs devem ser responsabilizados”, escreveram as duas embaixadas em termos semelhantes nas suas respetivas contas na rede social Twitter.

As informações das duas missões diplomáticas em Cabul têm por base um relatório do da Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão (CIDHA), uma entidade pública afegã.

As duas embaixadas acreditam que a direção dos talibãs deve ser responsabilizada pelos crimes das suas milícias.

“Se não são capazes de controlar os seus combatentes agora, já não serão capazes de fazer nada quando chegar a vez do Governo”, alertam as missões diplomáticas norte-americana e britânica na capital afegã.

No relatório, a CIDHA escreveu ter descoberto que, depois de tomar o distrito de Spin Boldak, os talibãs procuraram e identificaram funcionários do governo do passado e do presente “e mataram aquelas pessoas, que não tinham tido nenhum papel no combate”.

A Comissão afirma ter identificado 40 pessoas mortas no distrito pelos talibãs, admitindo que o número possa ser superior.

Os insurgentes também retaliaram contra os moradores que acolheram as forças afegãs durante uma tentativa para reconquistar o distrito, que acabou por fracassar, incluindo o saque de residências.

Vários civis também foram mortos por “motivos pessoais” e “por conflitos anteriores, refere o CIDHA.

As mortes no distrito de Spin Boldak são uma “clara violação do direito internacional humanitário” e “podem ser consideradas crimes de guerra”, denuncia a comissão.

“Embora a direção dos talibãs tenha oficialmente afirmado que os seus combatentes não atacarão civis ou edifícios civis, este episódio e outros semelhantes mostram que, ao contrário do que afirma, o movimento não segue na prática os princípios da direitos humanos e direito humanitário”, frisa a comissão.

Após conquistar vastas zonas rurais nos últimos três meses, na sequência da retirada das forças estrangeiras, os talibãs aumentaram nos últimos dias o controlo em três grandes cidades do Afeganistão.

Hoje também, o Presidente afegão, Ashraf Ghani, sublinhou que a degradação da situação militar no Afeganistão fica a dever-se à “brusca” decisão dos Estados Unidos de retirar os militares que se encontravam no país.

“A situação atual fica a dever-se à brusca decisão” de Washington, disse Ghani durante um discurso no Parlamento afegão, num discurso em que a anunciou que preparou um plano de seis meses para conter o avanço dos talibãs, mas não forneceu detalhes.

Referindo-se a um processo de paz “importado”, Ghani também acusou Washington de ter pressionado no sentido da “destruição da república” e legitimado os talibãs ao promover as negociações de Doha.

Os contactos resultaram, no início de 2020, num acordo que prevê a saída de tropas estrangeiras do Afeganistão.

Zabihullah Mujahid, um porta-voz das forças talibã, disse, ainda hoje, na rede social Twitter que as afirmações de Ghani no Parlamento de Cabul são “absurdas”.

As forças governamentais afegãs têm respondido com pouca resistência ao avanço dos talibãs e, essencialmente, controlam apenas estradas e as capitais provinciais, os próximos alvos dos insurgentes.

Numa altura em que se aproxima a retirada total dos Estados Unidos, já se verificam combates urbanos entre forças afegãs e talibãs em Lashkar Gah, uma das três capitais de província afegãs sob ameaça direta dos talibãs, que já confrontam também as forças afegãs nos subúrbios de Kandahar e Herat, as cidades mais populosas do país, depois de Cabul.