Depois da tempestade, onde está a bonança?

Por estes dias, a Madeira esteve na ribalta no que toca aos assuntos europeus, com a presença dos representantes máximos do Gabinete do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia em Portugal, bem como das duas eurodeputadas madeirenses, por via da Conferência sobre o Futuro da Europa que decorreu na semana passada, no Funchal.

Entre opiniões, críticas e elogios nas intervenções dos oradores, convidados e participantes sobre a ação da Europa, registei uma visão positiva sobre a generalidades dos dossiers abordados, mas igualmente algumas preocupações sobre o futuro, ainda para mais quando parecem não haver sinais de boa vontade para a resolução do conflito militar na Ucrânia, agravando-se a cada dia que passa o sofrimento de milhões de refugiados.

 

Tudo isto fez-me refletir sobre a “relatividade” das prioridades europeias! Se é certo que no início de um qualquer mandato, a Comissão prontamente apresenta as prioridades em torno das quais alicerçará o seu plano de ação, a verdade é que o mundo cada vez mais interligado, dinâmico e, sobretudo, imprevisível, torna tudo muito incerto. Ursula von der Leyen, em 2019, apresentou a sua nova estratégia de crescimento para a UE assente no Green Deal, uma visão distinta que colocaria a Europa na vanguarda do mundo em termos ambientais, rumo à neutralidade carbónica em 2050. Mas sem aviso prévio, um vírus desconhecido mudou o mundo tal como o conhecíamos, alterando completamente as nossas rotinas. Foram dois anos de luta, aprendizagens e adaptações constantes que resultaram num mega plano de recuperação que, em tese, colocaria a Europa novamente no “trilho certo”, por via do Next Generation EU. E eis que, chegados a 2022, quando os PRR começariam a fluir e a pandemia parecia retroceder, o mundo é literalmente surpreendido com a invasão impiedosa e injustificada das tropas russas sobre a Ucrânia.

 

A Europa vê-se assim, novamente, a braços com um novo desafio que terá inevitavelmente impactos sobre a estratégia definida para a nossa recuperação e, o “navegar à vista” parece por conseguinte, uma opção que não podemos descartar face a toda a imprevisibilidade dos tempos que correm.

 

Precisamente por isso, parece-me fundamental não desvalorizar o que já conhecemos! Falo, por exemplo, da deriva demográfica europeia, um tema mencionado (com toda a pertinência) na Conferência da passada semana, pois os dados conhecidos revelam uma realidade preocupante que terá a curto prazo consequências significativas em diversos setores da economia e da vida social. Concordando em absoluto com a necessidade de focarmos as nossas atenções nos jovens, até porque são os principais visados das crises (pandémica ou outras), não deixo de pensar que o progressivo envelhecimento da população é um dossier ao qual terá de ser dado uma maior atenção, sob pena de acordarmos demasiado tarde para as suas consequências.

 

Actualmente, mais de um quinto da população da UE-27 tem já 65 anos ou mais e, prevê-se que a percentagem de europeus com 80 anos de idade ou mais venha a aumentar duas vezes e meia até 2100, passando dos atuais 6 % para quase 15 %. Por outras palavras, também o grupo dos idosos (+ de 65) está a envelhecer!

 

Uma análise cuidada do tema revela diversos desequilíbrios que afectarão a forma como olhamos para o mercado de trabalho e como se fará a gestão da população sénior que também já não se revê na figura do ”reformado passivo” mas que, pelo contrário, quer continuar a contribuir com o seu conhecimento e experiência para a sociedade, pese embora todos os entraves que se colocam pelo aceleradíssimo progresso registado num mundo cada vez mais tecnológico.

 

Em Portugal, a média de idades era, em 2021, de 45,8 anos (só ultrapassada pela Alemanha com 45,9). Trata-se de uma situação que merece um olhar mais atento, para que no futuro não se alegue o factor surpresa sobre um problema real, há muito anunciado e cuja solução não se resume a um qualquer pacote de ajuda financeira.