Jornadas Madeira 2020: “Não devemos ter medo de grupos económicos fortes”, José Manuel Rodrigues

David Spranger

“Não devemos ter medo de grupos económicos fortes, pujantes, a competir no mercado nacional e internacional, geradores de lucro, pois isso é a melhor garantia de que vão criar emprego qualificado para os mais jovens e remunerar bem o seu trabalho”, alertou José Manuel Rodrigue, nas Jornadas Madeira 2020, que decorrem na Ribeira Brava.

As palavras do presidente da ALRAM foram referidas no final da sua explanação em relação aos principais problemas da Região, passando depois a uma análise mais generalizada.

“As políticas sociais só por si resolvem pouco, já que, demasiadas vezes, atacam as consequências, mas não vão ás causas da miséria, da pobreza, da privação e da exclusão social. E a causa é uma economia em recessão ou estagnada que gera emprego precário e pouca riqueza que, ainda por cima, não é equitativamente bem distribuída”, disse.

“Sendo estes alguns dos problemas estruturais diretamente ligados ás questões sociais, podemos ter a certeza que enquanto não os resolvermos, teremos sempre o aparecimento dos problemas conjunturais, seja por via de uma crise económica, seja devido a uma pandemia como aquela que enfrentamos”, constatou.

“É indiscutível que a paralisação económica está a provocar uma pandemia social e os próximos meses vão ser particularmente dolorosos para muitos madeirenses que perderam o emprego, os que trabalhando por conta própria não têm trabalho, ou estão em layoff e viram os seus vencimentos reduzidos, outros que não conseguiram segurar os negócios familiares e entraram em insolvência ou então os que estavam na economia informal e agora não têm qualquer suporte e apoio para as suas despesas”, frisou.

É verdade, referiu, “que os governos e os Municípios foram rápidos nas respostas a muitas destas situações”, mas “é igualmente certo que a burocracia fez demorar, adiar ou mesmo anular muitos dos prometidos apoios”.

Especificamente, “o Fundo de Emergência para Apoio Social e o Fundo de Apoio Regional a Organizações Locais, bem como outros governamentais já existentes, como o Rendimento Social de Inserção ou medidas como os programas Ocupacionais de Trabalho e os Estágios Profissionais, complementados pelos programas municipais, têm sido decisivos para atender às necessidades sociais das famílias”.

“Temos que reconhecer o intenso trabalho que o Governo Regional tem vindo a desenvolver e os recursos financeiros que tem disponibilizado para acudir aos problemas de desemprego, de perda de rendimento, do layoff, de privação alimentar, de pobreza e de exclusão de muitas famílias, originados pela pandemia. Mas tenhamos consciência de que não chega e que vamos ter pela frente meses dolorosos em que vai ser necessário estarmos muito atentos ao que se passa na nossa sociedade, sob pena de rompermos partes do nosso tecido social”, disse m ais à frente.

Perspetivando, “a retoma vai ser gradual, lenta, difícil e só quando começarem a chegar as verbas do Fundo de Recuperação Económica da União Europeia, no início do próximo ano, e o turismo regressar ao ritmo normal, sem data prevista, é que poderemos aspirar a uma mudança no frágil tecido social da Região. Até lá temos que fazer tudo para manter a paz social nas nossas ilhas, pois essa é uma condição essencial para voltarmos a ter crescimento económico e emprego”.

José Manuel Rodrigues é de opinião que “meia dúzia, uma dúzia de apoios sociais não fazem uma política social. São importantes para acudir ás consequências das crises e acudir às emergências, mas não vão à raiz do problema. Podem, mesmo, se muito prolongadas no tempo, criar subsidiodependências nefastas ao progresso e ao funcionamento do elevador social e criar um assistencialismo social prejudicial a uma saudável competição e concorrência entre os cidadãos, premiando quem mais se esforça, mais trabalha e mais produz”.

“Neste momento difícil, muito difícil da vida nossa Região, reafirmo a urgência de um Pacto para o Crescimento Económico, o Emprego e a Justiça Social, envolvendo Governo, maioria, oposições, partidos, parceiros sociais empresariais e sindicais, Câmaras, Juntas de Freguesia, associações da sociedade civil, Instituições Particulares de Solidariedade Social, escolas, paróquias, toda a comunidade, num movimento que possa gerar uma nova era de progresso e desenvolvimento para a Madeira e Porto Santo, com melhores empresas, mais emprego e mais equilíbrio social”, relevou.

Assim, “temos que ir à raiz de tudo e essa raiz tem a ver com o nosso modelo de desenvolvimento e o nosso sistema económico que precisa de ser aperfeiçoado e nalguns casos mudado para gerar melhor emprego e mais riqueza para ser distribuída de forma socialmente justa. Temos que lutar contra uma certa cultura da indiferença que, por vezes, se instala na sociedade que nos conduz ao conformismo e a uma desresponsabilização de uns pelos outros. Finalmente, temos que combater para eliminar uma das piores doenças da nossa sociedade que é o vírus da injustiça social”.