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Câmara de Santa Cruz critica “ameaça” de Miranda. Líder da AD Camacha corrige para “desespero”

Raul Caires

Jornalista

Data de publicação
08 Junho 2026
17:18

Ricardo Miranda reiterou, este domingo, que não irá candidatar-se a novo mandato se a Câmara Municipal de Santa Cruz não alterar a política de apoio ao clube, considerando que a mesma assenta em critérios desiguais. As declarações do dirigente, que foram reproduzidas pelo JM na edição impressa de hoje, não caíram bem junto da Edilidade liderada por Élia Ascensão, a qual fez questão de rebater, em comunicado, a posição assumida pelo dirigente perante um grupo de antigos atletas e dirigentes que se reuniram no complexo desportivo do clube para a assinalar o 40 anos da subida da equipa ao principal escalão do futebol regional.

Para o Município, Ricardo Miranda está a seguir uma “estratégia” que “tem vários problemas, mas começa logo por esbarrar com uma coisa que para nós é muito clara: a política desta autarquia não se destina a apoiar o clube do qual o senhor é presidente, mas sim a apoiar o desporto como um todo, o chamado movimento associativo, e a apoiar projetos de interesse municipal”.

“O Município de Santa Cruz mantém, há muitos anos, uma linha política clara e coerente através de regulamentos universais, transparentes e iguais para todos, evitando favoritismos, discricionariedade e decisões tomadas sob pressão”, acrescenta a nota, que salienta de seguida que a “importa, em primeiro lugar, deixar muito claro que a política de apoios da autarquia não vai ser sequestrada por ameaças, por egos, nem pode estar ao serviço de objetivos pessoais”.

O comunicado sublinha depois que o clube “tem sido apoiado” no quadro das regras em vigor no Município, bem como de acordo com a “disponibilidade financeira” e os “objetivos de gestão” deste órgão, indicando, a título de exemplo “a recuperação infraestrutural do concelho, que tem décadas de atraso, as nossas políticas sociais, as nossas políticas ambientais e do território”.

“Não existimos, nem fomos eleitos, para gerir associações desportivas ou a disponibilidade dos seus dirigentes, ou para pagar candidaturas à presidência seja de que associação for”, recorda a Câmara, que enumera apoios que têm sido concedidos à AD Camacha.

“Uma breve consulta a documentos oficiais revela que a Associação presidida pelo senhor Ricardo Miranda recebeu, do Governo Regional, entre 2024 e 2026 mais de meio milhão de euros, concretamente cerca de 636,784 euros”, lembra a nota, que por parte da Autarquia contabiliza, “desde 2017, 103,837,92 euros de apoio financeiro a projetos específicos, tendo recebido, ainda, desde 2022, 13, 990,00 euros de apoio financeiro a exames médicos e formação”, além de “apoio logístico, isenção de taxas e recursos humanos.”

A Câmara chama ainda a atenção para os regulamentos em vigor e as medidas que, “a partir do próximo ano”, possibilitam “apoio a instalações desportivas abertas à comunidade para fazer face a despesas como gás, água e eletricidade”, com as associações a poderem “candidatar-se a várias valências: apoio a iniciativa ou projeto, apoio à formação e apoio a gastos com as instalações”.

Em jeito de recado/promessa, a nota termina com a Câmara de Santa Cruz a garantir que “não tem, e não voltará a ter, apoios segundo a cara e a filiação partidária, apoios que discriminam uns a favor de outros, apoios sob regime de ameaça”.

“Aos dirigentes cabe gerir bem as fontes de financiamento disponibilizadas pelas várias entidades públicas, definir a política do clube, candidatar-se ou não. Aos dirigentes, não cabe decidir políticas que são sufragadas pela população e que estão ao serviço de todos e não ao serviço de alguns”, remata.

Miranda refuta “ameaça” apontando para “desespero”

“Estas minhas declarações foram proferidas aos sócios e simpatizantes do clube para justificar uma eventual ausência da minha candidatura. Aliás, antes de ter essas declarações informei a Srª Presidente da Câmara, bem como a Srª Vereadora com o pelouro do Desporto, que não poderia continuar sob estas condições, não em tom de ameaça, mas em desespero de causa de quem não quer falhar com os compromissos, mas já não tem forma de o fazer”, explica Ricardo Miranda numa nota emitida em resposta à “análise” feita pela Autarquia à notícia do JM.

O dirigente começa por destacar a rapidez da Câmara de Santa Cruz na reação às suas declarações, observando, em tom irónico, que se houvesse “a mesma celeridade em variadíssimos assuntos como tem em fazer comunicados quando alguém tem uma posição diferente da sua, estávamos todos bem melhor”.

Mais a sério, Miranda confessa depois “um misto de mágoa e incredulidade” que ao ler “comunicado da Câmara Municipal”, sobretudo a parte em que Élia Ascensão afirma que “a política de apoios da autarquia não vai ser sequestrada por ameaças, por egos, nem pode estar ao serviço de objetivos pessoais.”

“É com um orgulho enorme que posso afirmar que em 8 anos à frente dos destinos da AD Camacha nunca falhamos um dia no pagamento aos nossos funcionários (desde atletas, treinadores, staff, etc.), que são já mais de 50 elementos. Mas isso só foi possível com recurso a injeção de dinheiro por parte da direção”, afirma o dirigente, deixando a pergunta: “Se tudo o que dei ao clube nos últimos anos é encarado pela minha autarquia como ego e objetivos pessoais, ou realmente não me conhecem ou então só podem estar de má fé”.

“No entanto fico completamente descansado pois pelo que percebi no comunicado, eu é que tenho má gestão, logo facilmente irá aparecer alguém mais capaz e que levará o clube em frente. Sempre acreditei que não há insubstituíveis”, diz.

Miranda ficou “também satisfeito por saber que o Município tem os números bem presentes” acerca dos apoios atribuídos à AD Camacha, e mais ainda por ter sido esclarecido que o “apoio que tivemos em 8 anos foi o mesmo que o concelho vizinho [Machico] deu em apenas 1 ano à equipa que competiu na mesma divisão [Campeonato de Portugal] do que nós.”

“Deixo no entanto uma pergunta: se, como dizem, os critérios têm de ser iguais para todos e não pode haver diferenciação, que valor é que gastam anualmente com o Complexo Bráulio França que, segundo sei, é cedido gratuitamente ao Santacruzense, com todas as despesas de manutenção (água, luz, etc.), a serem assumidas pelo Município? Deixo esta pergunta não com o intuito do Santacruzense, instituição que muito respeito, deixar de ser apoiado, mas sim com o objetivo que todos os clubes do concelho tenham as mesmas condições”, atira o dirigente.

A terminar, Miranda diz que consegue “perceber quando se fala em questões partidárias”, mas deixa uma garantia: “será que após tantos anos ainda não perceberam que o meu partido é a Camacha? Se calhar tenho é a coragem e frontalidade de dizer o que muitos pensam, falam nos bastidores, mas têm receio de afirmar publicamente”.

Apesar de tudo, assegura que continuará, “como sempre, disponível para conversar pessoalmente sobre qualquer assunto que envolva a AD Camacha.”

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