MADEIRA Meteorologia

“A escrita é uma viagem inútil” sem qualquer função terapêutica”, afirma Camila Sosa Villada

Data de publicação
14 Junho 2026
10:27

A escritora argentina Camila Sosa Villada defende que a literatura “não serve para nada”, no sentido de uma função terapêutica ou utilitária da escrita, assumindo o ofício como prática “inútil”, mas essencial na relação silenciosa entre livro e leitor.

Em entrevista à Lusa, numa passagem por Lisboa, a propósito de “A viagem inútil”, obra agora publicada pela Quetzal, embora escrita anos antes, a autora explica que o próprio título traduz uma posição estética e ética.

Este livro constitui o relato cru da própria vida de Camila Sosa Villada, as suas origens, a sua dolorosa infância, a sua vivência como travesti que conheceu a prostituição, mas também o êxito no teatro e o exercício da escrita.

Como escreveu a própria autora, quis que a sua história se soubesse, a do seu travestismo, da família e da tristeza precoce que a marcou - o alcoolismo do pai, as carências da mãe, as mudanças que a afastaram de tudo o que lhe dava segurança -, da sua infância e da luta devastadora contra a pobreza, que virou todos contra todos, deixando-os doentes de “rancores, desamor e indiferença”.

“Que [a escrita] seja inútil, não significa que seja melhor ou pior. Uma tal viagem a lugares inúteis não precisa de defesa, nem de argumentação”, afirmou a autora à Lusa, recusando a ideia de que a literatura tenha de justificar a sua existência.

Para Camila Sosa Villada, escrever é um gesto sem finalidade prática e prefere vê-lo como uma “coisa inútil, que não serve para nada, que não tem um objetivo na vida e que, no entanto, anda por aí a fazer companhia às pessoas, estas sentem-se menos sós ou descobrem algo sobre si próprias”.

Pegando nos ‘clichés’ frequentemente associados a quem escreve, sobretudo obras de cariz autobiográfico com pendor traumático ou doloroso, como é o seu caso - a escrita terapêutica ou que salva, que permite o autoconhecimento, que cura traumas ou sana feridas, entre outros -, a autora prefere não atribuir funções à literatura.

“Se atribuíssemos à leitura alguma capacidade farmacêutica, de ser um meio de descoberta pessoal, um instrumento para alguma coisa, estaríamos a dizer que a literatura é um instrumento de domesticação. Temos de ter lucro com tudo?”, questiona.

Apesar disso, reconhece o impacto que a leitura pode ter no leitor, como admite tiveram consigo as leituras de Sharon Olds ou de Marguerite Duras, que têm sido uma forma de aprender a ser quem é.

A “viagem” da escrita não tem destino definido, “vai para onde as palavras a levam”, e às vezes “acaba ao colo de um leitor numa viagem, num comboio ou em sua casa ou numa fila de hospital ou numa fila do banco, e começa a falar”.

No caso de “A viagem inútil”, Camila Sosa Villada explica que o livro nasceu de um impulso de compreensão do seu próprio percurso enquanto escritora.

“Queria ser honesta sobre... como nasce um escritor por dentro”, afirma, descrevendo uma genealogia afetiva marcada pela família, pela importância que o pai e a mãe tiveram na sua descoberta da literatura e da escrita, uma origem que se liga também à construção da sua identidade.

“Tinha necessariamente de falar sobre este ritual: Um homem que ensinou o filho a escrever, uma mulher que ensinou o filho a ler, um filho que, a dada altura, decide ser travesti, e como a literatura e o travestismo acontecem no mesmo momento”, contou.

Questionada sobre até que ponto aquilo que escreve é uma forma de manter vivas as memórias ou é uma reinvenção daquilo que realmente viveu, a autora admite não controlar totalmente o processo narrativo.

“Algumas coisas são simplesmente imagens, recordações de algo, mas não necessariamente coisas que me tenham acontecido, por isso, para mim, foi algo do género de uma tese sobre o porquê de me ter tornado escritora, mas a partir daí o que surge como autobiográfico e o que surge como puramente ensaístico no livro, não sei como o fiz. Deixei-me levar”, revelou.

A dimensão autobiográfica da obra não implica, contudo, reconciliação emocional, sublinhou, reforçando que o livro não a ajudou a sarar feridas, antes pelo contrário.

“Foi pior porque o meu pai ficou zangado comigo. Disse qualquer coisa como: ‘nesse livro fazes-me parecer um filho da mãe’. Portanto, foi pior. De facto, tive crises profundas depois disso. Quando termino um livro, as crises são muito grandes, são muito difíceis de ultrapassar. No final dos livros, há um enorme luto. E sofro muito com isso, mais do que quando as estou a escrever, muito, muito mais”, confessou.

É por isso que a única coisa que pede a um livro “é que seja escrito, a partir daí, a dor mantém-se. O livro foi editado, traduzido, viajado. Viaja ainda mais do que eu, conheceu mais pessoas do que eu, pessoas gostaram mais dele do que de mim. E ele tem a sua vida”.

Camila Sosa Villada lamenta que não se possa apenas pegar num livro com “total irresponsabilidade, apenas para ver até onde nos leva, e não ter a obrigação de dizer, ‘oh, este livro ensinou-me coragem’”.

“Se temos de encontrar uma utilidade para tudo, estamos a viver num lugar em que eu, pelo menos, não quero viver como escritora. Este livro ajudou-me simplesmente a contar a história de como era difícil ser pobre”.

Para a autora, essa capacidade de exposição faz da literatura uma arte singular, que “ilumina através da linguagem” e é, na sua perspetiva, “a arte mais poderosa, em termos de alcance, do que pode fazer no mundo” e também pela sua acessibilidade, já que “uma história pode ser escrita por qualquer pessoa com um pedaço de papel e um lápis e nada mais”.

O seu processo criativo surge associado a disciplina, transformação e influência literária, nomeadamente de Joan Didion e Anne Carson, autoras que tiveram um “enorme impacto” no seu esforço de se afastar de si própria, porque “quanto mais distante a escrita de um autor estiver daquilo que ele é e daquilo que faz, melhor será”.

Essa transformação reflete-se também no ritmo do livro, que “se demora até chegar a um final que é tremendo, que é terrível, que é como uma morte”, evocando episódios marcantes da vida da autora.

Partindo desta ideia, Camila Sosa Villada considera que “a literatura é solitária, é triste e tem aquela coisa do desespero constante”.

“Abrir-se a um livro, abrir-se a uma história, é abrir-se a um perigo muito grande que implica ficar acordado durante noites a fio, sem conseguir adormecer, em que até a migalha de pão na mesa incomoda, porque não se consegue encontrar uma saída num parágrafo, num capítulo, numa frase”, considerou, frisando que “é uma arte bastante triste, mais de fracasso do que de triunfo”.

No livro, Camila Sosa Villada fala da necessidade que sente de ter ruído à volta enquanto escreve - seja num aeroporto, num transporte público, ou numa sala de espera de um hospital -, ao contrário da maioria dos escritores, que procura o silêncio e o isolamento.

“Sempre foi assim. E com música de fundo. Não acho que o silêncio seja natural”, confirmou a autora, questionando “que tipo de música tem um texto que foi escrito por alguém que precisa de escuridão e silêncio para escrever”.

“Uma viagem inútil” tem som, tem ruído e tem música, sobretudo as “Variações Goldberg”, mas também Billie Holiday em “I’m a fool to want you”.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Arranca esta quinta-feira, 11 de junho, mais um Mundial de Futebol. Até onde pode chegar Portugal?

Enviar Resultados
RJM PODCASTS

Neste episódio, a professora Susana Freitas e os alunos Rodrigo Ferreira e Madalena Magalhães, da Escola Secundária Jaime Moniz, partilham a experiência...

Mais Lidas

Últimas