Um pouco de Pipi, de Patrícia, de Ana e de Zé

Tive a sorte de viver um mundo que estava a acabar para dar lugar a um outro. Esse mundo foram os anos oitenta, com tudo o que ainda tinham de velho e com o novo que surgia por toda a parte e inundava os dias e prometia o futuro.

Nesse mundo em aceleração rápida, estávamos nós, os miúdos que só conheciam o Portugal saído do 25 de abril e para quem a ditadura era memória dos antigos, mesmo que essa memória estivesse ainda ao virar da esquina e houvesse muito por conquistar ao mofo e à falta de liberdade e igualdade.

Fomos a geração à beira da fartura do futuro. Morriam os leiteiros e nascia o leite pasteurizado, os iogurtes, as botas ortopédicas e todas as terapias que nos iam salvar para sempre das nossas falhas. Nem era preciso morrer para alcançar o paraíso da perfeição. Só tínhamos de passar o purgatório de usar óculos e botas e havíamos todos de ser perfeitos à conta das vacinas e das consultas da Caixa.

Em termos de igualdade de género, cresci numa época em que as tias velhas ainda se agarravam aos estereótipos das meninas e dos meninos, do azul e da cor de rosa. Dos brinquedos-macho que fariam dos meninos homens, e dos brinquedos-fêmea, que eram as bonecas que fariam das meninas esposas cordatas e mães exemplares.

Mas havia um mundo que escapava às tias velhas. E esse mundo vinha dos livros e da televisão que, mesmo na monotonia do canal único e da sorte de apanhar a TV Canárias em dias de verão, se fazia pele na nossa pele a crescer e se fazia alma livre contra a alma condenada ao pecado do catecismo que ainda persistia, mas só aos domingos.

Com o pecado preso ao dia do Senhor, foi neste meio mundo antigo e no novo mundo inteiro que me fiz gente pela mão das minhas primeiras heroínas. Sim, o meu mundo abria-se à igualdade e à emancipação. E eu fui sendo gente pela mão dos livros dos Cinco, de Enid Blyton, onde a Ana e a Zé ombreavam, de igual para igual, com o Júlio e o David e até com o cão Tim. Eu já não era a rapariga que devia manter a compostura e obedecer à ordem das tias e ao seu "não és um macho". Sim, eu não era um macho. Eu era muito melhor do que isso: eu era o que quisesse.

Podia ser a detetive Patrícia, criada por Kathryn Kenny e Julie Campbell, e investigar mistérios e usar calças e cabelos curtos que são muito mais práticos para a aventura. Até já tinha sardas como a Patrícia. Sardas de andar em liberdade pelo sol.

No fundo, era a Pipi das Meias Altas, de Astrid Lindgren, mas sem as meias. Só com os pés descalços no chão, a sentir a vida toda pela frente e a liberdade que a cada dia era maior.

Eu vivi um mundo em mudança e isso foi a maior das conquistas, porque me deu memória e futuro. Deu-me também lucidez para perceber a conquista, o doce sabor da vitória e até o amargo de algumas derrotas. Algumas delas tão grandes que nos atiram ao chão com a liberdade de cair com o coração em cheio numa ferida a arder.

Somos dessa geração de um mundo em mudança e nesse movimento constante aprendemos também que nada é garantido, que tudo tem de ser permanentemente conquistado, que não podemos viver de velhas vitórias. Seremos sempre um pouco de Pipi, de Patrícia, de Ana e de Zé. A aventura, na verdade, nunca termina.