A coisa mais simples do universo

Três noviços e dois postulantes estavam a conversar num sábado à noite, no refeitório do Noviciado. Tinham acabado de jantar, mas continuavam sentados à mesa. A certa altura, um dos noviços disse que no cinema da vila cabiam seiscentas pessoas. O número pareceu excessivo aos outros. Disseram que não era possível e um dos postulantes foi mais longe, afirmando que naquela sala não cabiam sequer duzentas pessoas. No entanto, ninguém concordou com ele. Ou seja, se o noviço exagerava para mais, o postulante exagerava para menos.

– É preciso ver que o recinto tem plateia e balcão – disse um.

– Não te esqueças que o edifício é mais alto do que comprido – alertou o outro.

– Cabe – insistiu o primeiro.

– Não cabe – replicou o segundo.

Passaram os cinco para a sala de estar do Noviciado. Lá fora começou a chover. Uma chuva estrondosa, acompanhada por relâmpagos e trovões que faziam vibrar portas e janelas. Naquele lugar, o mês de março é assim: chove muito e todos os dias, como se não houvesse fim para os dias nem para a chuva.

– A sala leva seiscentas pessoas à vontade! – Reafirmou o noviço, agora com mais determinação.

– Nem duzentas! – Contrapôs o postulante, igualmente determinado.

Os cinco rapazes encontravam-se sozinhos no Noviciado. Os padres que dirigiam a instituição tinham saído. Dois viajaram para a capital. O outro ficara em casa para orientar as coisas, mas, ao ver-se livre dos confrades, meteu-se logo no jipe e foi visitar a família, que vivia numa povoação a sessenta quilómetros. A sua intenção era passar lá o dia e regressar à noite. Contudo, as estradas são péssimas naquela zona e – já o dissemos – em março chove muito. Pelo caminho caiu uma ponte e o padre ficou do lado de lá. Pouco se importou com isso. A seu ver, aconteceu apenas que Deus quis que ele ficasse do lado de lá e ele ficou.

– Seja feita a vossa vontade – murmurou, enquanto fazia inversão de marcha.

Nesse dia, à hora do jantar, os três noviços e os dois postulantes deram-se conta de que estavam sozinhos em casa, mas também eles não ficaram minimamente preocupados. O mais velho disse que a vida era assim mesmo. Todos concordaram e, de modo a não esquecer a lição, o mais novo repetiu o que dissera o mais velho:

– A vida é assim mesmo.

Todos concordaram outra vez e o mais velho enfatizou:

– É mesmo assim.

Na sala de estar, continuaram a discutir a capacidade do cinema e um deles, que conhecia os segredos da casa, foi buscar uma garrafa de uísque a um esconderijo. Começaram a beber e foram bebendo pouco a pouco, até que a garrafa acabou. Ficaram todos meios bêbados e a discussão animou mais do que nunca.

Entre o número seiscentos e o número duzentos desenvolveram-se inúmeras teses e antíteses, sendo que umas e outras faziam sentido na ocasião, mas logo a seguir não. No fundo, a conversa dos rapazes era como um documentário sobre astrofísica. Enquanto assistimos, tudo parece clarinho, óbvio e laminar, mas no dia seguinte não somos capazes de explicar nada, nem sequer o movimento mais simples do universo, como se tudo à nossa volta fosse uma coisa destinada à eterna incompreensão, aos abismos sem fim, aos vãos e aos ocos do tempo que nos foi dado viver.

Por fim, um dos rapazes lembrou-se de perguntar se algum dos outros já tinha entrado no cinema. Fez-se silêncio no meio da chuva e dos trovões. Nenhum tinha jamais posto os pés lá dentro, nem mesmo o que fizera a pergunta.

Então, calaram-se bem caladinhos e foram dormir.