Com licença

Pela primeira vez bloqueei uma pessoa nas redes sociais. E não gostei nada, mesmo nada. Foi como bater a porta na cara de alguém. Na cara de um desconhecido mas, ainda assim, foi algo que me incomodou mais do que devia.

Cresci com gente batendo palmas ao portão e gritando “Ó de casa!”. E havia sempre alguém, a fazer companhia ao cão e aos periquitos, que ia ao portão ver quem era. Ou era a minha avó que parava os trabalhos de modista, ou era minha mãe que interrompia a lida da casa e, ocasionalmente, eu e o meu irmão também tínhamos essa tarefa. Havia tempo para abrir a porta e para ser simpático e gentil com os vendedores porta-a-porta, com alguém perdido à procura de direções ou de trabalho como doméstica. Nem todos eram desconhecidos, também apareciam vizinhas para saber se os filhos andavam no nosso quintal ou pedindo emprestados ovos, açúcar ou farinha para o bolo que deixaram a meio.

Ainda hoje, quando abro a porta de casa aos agentes imobiliários ou aos vendedores de fibra ótica, os únicos estranhos que me tocam à campainha agora, não os consigo despachar. Oiço até ao fim a cassete, ainda que no início afirme logo não estou interessada ou que já estou servida do que têm a oferecer. Se decidem continuar o seu discurso ensaiado é pela oportunidade de praticá-lo... acho eu. No fim, levam um sorriso e um sincero “boa sorte”.

Mas voltando às redes sociais, o meu critério pessoal é só aceitar pessoas que conheço pessoalmente e que, se as visse na rua, as cumprimentaria. Em raríssimas ocasiões, que sempre me renderam pessoas muito interessantes, quebrei a norma. Com o tal senhor francês achei que ia ser assim, por termos um interesse em comum e por me ter parecido que fazia uso da rede social apenas para partilhar fotografias e informações sobre esse tema. Aceitei o seu convite, para, logo no mesmo dia receber várias mensagens cobrando uma atenção que em momento algum lhe criei expetativa de receber. Aliás, o tom das mensagens passou de desagradável a ofensivo porque eu 'demorei' a responder à sua primeira abordagem. O que faz uma pessoa comportar-se assim com um perfeito desconhecido? O que faz uma pessoa ansiar tanto pela reação de um estranho, a ponto de se enervar daquela maneira? Não sei e não quis usá-lo para descobrir a resposta. Bloqueei-o mas não sem antes dizer: “com licença”. É o mínimo quando se fecha a porta na cara de alguém.

Editado às 11h03 de 04-03-2020