A salvação do mundo

Na noite de 31 de outubro para 1 de novembro de 2010, em Moçambique, eu fui atacado por um vírus ou por uma bactéria ou por um bicho qualquer desse género, invisível e terrível, e fiquei de rastos, com febre alta e diarreia persistente. Aquilo não passava, não abrandava – teimava, durava – toda a noite, todo o dia – e fez-me pensar seriamente na morte.

– Cuida de ti – disse-me há muitos anos um familiar que era frade e, naquela hora de dor e solidão, lembrei-me dele no preciso momento em que me agarrou por um braço e disse:

– Cuida de ti. Se não cuidares, ninguém o fará.

E depois acrescentou:

– Nem sequer Deus.

Enrolei-me na cama e passei em revista o tempo da minha vida, encolhido entre o delírio e a clarividência, vendo que a certa altura o ambiente tinha começado a ficar pesado para mim no hemisfério sul e eu era assaltado por maleitas cada vez mais frequentes, a ponto de suspeitar que alguém andava a fazer-me mal, a meter veneno na minha comida, a enfeitiçar-me, e esse alguém só podia ser uma pessoa da missão ou todas em conjunto. A minha postura, marcada pelo silêncio e pela liberdade, inquietava e surpreendia toda a gente e pensei que me quisessem mal por isso. Estando um gajo em África, nunca se sabe… Em África – garanto-vos – acontecem sempre coisas muito estranhas, mais não seja dentro da nossa cabeça…

A febre… a fraqueza… a diarreia...

Um dia – vou lembrar-me disto para sempre – entrei numa sala onde os residentes da missão estavam sentados diante do televisor e estremeci, fiquei gelado, cheio de medo também, porque vi nos seus rostos a destruição de todas as verdades e percebi que tudo era fantasia. A missão, os planos, os objetivos, as palavras, África inteira, Deus e a alma das pessoas. Tudo fantasia. Tudo mentira. Eu próprio era uma fantasia e uma mentira naquele mundo, porventura a maior de todas. Mas também acredito que esta perceção pode ter sido motivada pela penumbra da sala e pela mudança constante da luz que emanava do televisor, bem como pelas três cervejas de meio litro que tinha bebido na cidade. Seja como for, havia ali uma incontornável marca de irrealidade e horror.

Contudo, as horas no geral eram suaves, diáfanas, e nós falávamos uns com os outros amigavelmente, cheios de sorrisos e boa disposição:

– Então como está?

– Tudo bem, obrigado. E você?

Depois sentávamo-nos à mesa como um bando de seres inexistentes, a fazer conversas inexistentes ou submersos em silêncios ainda mais inexistentes. Um bando de fantasmas, demónios, cretinos. E eu também fantasma, demónio, cretino, a pensar que devia armar-me em moralista e insultá-los com a verdade, como se eu fosse dono da verdade, como se possível alterar a ordem das coisas com a verdade.

A febre… a fraqueza… a diarreia...

E eu prostrado na cama, a ouvir uma voz no fundo da memória, um sussurro distante:

– Cuida de ti, Duarte. Cuida de ti.

Caso contrário, ninguém se salvará, pensava eu, enrolado em posição fetal, ninguém se salvará e eu serei apenas um homem que morreu sozinho em África, numa hora indefinida, imprecisa, algures entre 31 de outubro e 1 de novembro de 2010. Nada mais.